
Pietro Annigoni
Repousas por trás de uma grossa e impenetrável porta. Não queria correr o risco de ferir a tranca em uma madrugada sonolenta e ávida de lembranças. Por isso, joguei fora as chaves. Houve dias em que me peguei quase arrastando os pés em direção ao escuro corredor. Mas a lembrança da ausência das chaves me fazia recuar. Ou antes, o motivo de tê-las jogado fora. É verdade também que no começo cheguei a sentir o cheiro úmido dos teus cabelos, da tua pele. Provavelmente porque tinha esquecido de vedar a fresta próxima ao chão. Resolvido o problema, a memória foi desaprendendo o odor de eucalipto que exalavas. Tanto, e a tal ponto, que me surpreendi, a pouco, acendendo na casa um incenso desta planta. Fez-me lembrar do cheiro de chuva no mato, de uma gripe distante, da fragrância que senti ao passar na loja da esquina. Não de você.
Ainda assim, me vigio. Como se houvesse trancado ali, a essência de um vício.
Escrito por Vássia Silveira às 18h42
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Alexej Von Jawlensky
Há em mim um instinto de sobrevivência que me obriga a mergulhar no desconhecido. É quando se tornam turvas as águas do mar e quase insuportáveis os raios que rasgam o fino tecido da cortina para me alcançar, inerte, na cama. Não ouço o canto dos pássaros, apenas o coaxar constante dos sapos que trazem à memória a imagem de um charco. É nele que ando arrastando os pés e ferindo a carne. Porque há dias que é preciso que eu me alimente do escuro, sorvendo em silêncio a angústia e a desesperança.
Escrito por Vássia Silveira às 15h58
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