gavetas e janelas


John William Waterhouse

Ele queria sugar-lhe a alma.
Bebê-la como veneno,
um fio de desejo escorrendo
no canto dos lábios.

Ela queria adivinhar-lhe a ira.
Solapar-lhe, à noite,
os devaneios que cresciam
enquanto rangia os dentes.

Ele queria rasgar-lhe a carne.
Fincar-lhe nas costas os dedos
manchados de sangue.

Ela queria libertar-lhe da infâmia.
Desvendar-lhe o campo que
dormia silencioso sob a bruma.

Ele queria apagá-la da memória.
Ela até poderia querer...

(Mas do alto da montanha,
onde agora se encontrava,
as lembranças eram apenas névoa)



Escrito por Vássia Silveira às 21h04
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Modigliani

A fome calou o cão que lambe
o rastro de vômito e a última
gota de bile, enquanto acendo
o trigésimo cigarro e deixo
queimá-lo entre os dedos.

 

Ao redor, os pedaços da xícara,
do relógio, do porta-retrato que
guardava tua fotografia – agora
manchada pelo café frio e amargo.

 

Na vitrola – gosto desta palavra – e
na tela do computador, o silêncio
imprime a nostalgia de outrora:

um barco sem destino singra as poças.

 

*Inspirado em poema de Ivaldo Ribeiro Filho.
http://www.dragaodomar.org.br/index_new.php?pg=impre21

 



Escrito por Vássia Silveira às 14h56
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