
Howard David Johnson
Um céu-rosa-carvão anunciou chuva fina e das borboletas soube-se o segredo
(dos beijos roubados às flores)
Escrito por Vássia Silveira às 20h16
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Chagall
Histórias curtas de menina-manhã:
A lua assombrou a janela e fez rir a bailarina de porcelana .
Escrito por Vássia Silveira às 14h53
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O fabuloso destino de Amelie Poulin, versão japonesa
Minhas unhas contaram tua geografia e dela fiz mapa de se perder e de se encontrar.
Escrito por Vássia Silveira às 13h04
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Nossa hora – que demora! - é a aurora que vigora, é o susto, o suspiro dissolvendo as angústias à espera do sossego, que não chega, que não passa, só transpassa o desejo, é a fome, é o beijo, é o gozo no azulejo, é a fúria que é candura, repousando na brancura, dos teus sonhos, dos teus medos, dos abraços – que sossego, que angústia -, é o cheiro espraiando desespero, minha boca na tua boca, tua boca nos meus seios, é o anseio do futuro escalando os ponteiros, do relógio, da cozinha, das viagens sem roteiros: fome e sono é a saudade, é também insanidade, que desvenda, que revela, que descobre novos cantos, teus encantos.
* Para desanuviar tua insegurança...
Escrito por Vássia Silveira às 22h50
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Você me pergunta, e eu digo sim
Não precisas gritar às flores nem acordar a vizinhança – pois é na tua quietude que repousam meus sonhos
Deixemos, portanto, que esse orvalho molhe em silêncio as nossas peles e que o frescor da aurora embale as almas
(não precisamos mais que isso).
Você me pergunta, e eu digo sim: minha casa é sua, na medida que entras devagarinho...
Escrito por Vássia Silveira às 20h25
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Man Ray
Um gato histérico arranhou o teto. Estava pendurado pelo rabo e não sei quem fez tamanha maldade ao felino. Era imponente, o bichano. E sobre ele refletiam-se as últimas luzes da madrugada – as estrelas caídas de sono, a noite ardendo pela chegada da manhã.... Pobre gato, pobre moça que ficou a olhá-lo no teto, enquanto arranhava o ar procurando por sua existência.
Escrito por Vássia Silveira às 12h23
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Casa de Cora Coralina, Fotografia de Cameni Silveira
Sobre a janela, vasos de barro e ramos de alecrim. O rosto refletido no bronze das panelas antigas e a força das mãos se dobrando ao peso dos caldeirões de ferro. Na mesa de tábuas retorcidas, a circularidade das laranjas colhidas pela manhã no quintal. E também dos limões, com toda a sua acidez e azedume. Ao pé do fogão à lenha, para lembrar que o tempo – mesmo sem pressa – deixa tudo em seu lugar, os gatos se aninham na preguiça. Das janelas abertas em par, vê-se a correria alegre das meninas, a horta que começa a brotar e as pequenas flores, mais ao longe. É esse o paraíso que construirei: uma cozinha com cimento batido para jogar na frieza do piso as cores de minhas esperanças.
Escrito por Vássia Silveira às 12h04
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Fotografia de Jerry Cooke
O caso da bailarina
Era um desejo de criança e começou depois de ter visto em um filme a imagem da bailarina da caixinha de música. Queria uma. Achava que seria um alento ficar olhando-a enquanto a vida passava besta pela janela da infância. Mas havia um problema: a caixinha, pelo que entendi depois, era artigo de luxo em minha cidade.
Havia uma única loja, no antigo aeroporto, que vendia os modelos. Eram redondos, quadrados, retangulares e tinha até os que traziam a bailarina acompanhada com o par – esses dançavam valsa. Descobri-a num domingo em que fomos ao local esperar uns amigos de meus pais que chegavam de viagem e tão logo avistei na vitrine o movimento da bailarina, grudei os olhos de menina e fiquei lá, escolhendo em silêncio a que mais se adequava aos sonhos melódicos que alimentava.
Porque não eram todas as músicas que me tocavam o coração. Gostava de uma em especial. Acho que era Debussy, não tenho certeza. Mas sei que ao ouvi-la acreditava ser possível que a bailarina pulasse da caixa e passasse a rodopiar no ar, ali, bem ao meu lado.
Não sei quanto tempo fiquei espiando a vitrine nem lembro também se a vendedora achou ruim o fato de minhas mãos terem marcado o vidro com o suor que até hoje me acompanha. Mas sei que tão logo avistei o modelo no fundo da loja, numa prateleira acima dos porta-retratos, fui correndo chamar minha mãe, na intenção de que ela conhecesse o meu sonho de consumo para o próximo natal ou aniversário. É linda, filha, disse ela. E dando-me um beijo na testa prometeu para o final do ano, junto com as roupas e sapatos novos, a caixinha redonda, de base escura e um tampo com flores gravadas em nuances de vermelho e dourado.
Dali em diante minha vida se resumiu na espera. Eu queria que o Natal chegasse e com ele, minha caixinha de bailarina. E qual não foi a minha decepção ao descobrir que entre os presentes de fim de ano, não estava o porta-jóias! Devo ter estampado no rosto a frustração, pois lembro dos olhos de mamãe cravados em mim, num pedido silencioso de desculpas.
Até ali, minha vontade era de chorar. Mas eram tão fundos os olhos dela, que engoli o choro e senti vergonha por desejar um mimo tão caro. E jurei não tocar no assunto, embora nunca desperdiçasse uma ida ao aeroporto para ficar olhando as caixinhas e suas bailarinas.
Muitos natais se passaram e embora eu não pedisse, minha mãe alimentava a esperança de dar-me a tal caixa de música. Sabia disso porque sempre perguntava se lembrava do dia em que lhe pedi uma e quando respondia que sim, dizia-me que eram mesmo bonitas, as caixinhas. Não gostava de falar sobre o assunto, vinha-me logo na memória a imagem do Natal em que rasguei os pacotes com pressa e acabei sentada com as pernas para trás segurando na mão o último embrulho: uma blusa branca com a figura de uma menina com laços de fita na cabeça.
Com a passagem dos anos, fui me esquecendo da dor e guardando apenas a lembrança musical da bailarina. E poderia ter continuado assim, não fosse a persistência de minha mãe. Em meu aniversário de quinze anos, ela surpreendeu-me com um porta-jóias. Não era de madeira, como o que eu tinha visto na infância, mas trazia flores vermelhas e douradas gravadas no metal e uma bailarina solitária que dançava ao som da música que não lembro se é de Debussy.
Ao ver a imagem da boneca rodando ao som da caixinha de música, veio-me à face as lágrimas guardadas desde aquele Natal. Uma mistura de alegria e tristeza, como se de repente não fossem as mãos de uma jovem que segurasse o objeto, mas as da menina. E foi ela, a menina da vitrine, quem abraçou a mulher. E sem encontrar nenhuma outra palavra para agradecer a lembrança e a dor compartilhada, disse sorrindo:
É linda, mãe!
Escrito por Vássia Silveira às 18h11
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Modigliani
Viola
(Para Clara)
Lilases pontos transpassam teu rosto viola, pandeiro de emoções.
Um samba afinado, um blues notas e gestos refazendo luas.
Na sombra, o perfume no som, as histórias no teto, uma luz
Mímica desfazendo-se em cores.
Escrito por Vássia Silveira às 19h02
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Fotografia de David Winston
Ele queria o meu perdão e não sabia que a borrasca havia limpado do chão toda a sujeira e que sobre a terra uma chuva fina espalhava matizes vermelhos naquilo que antes julgava-se cinza.
(Não, não há o que perdoar do inverno)
Escrito por Vássia Silveira às 18h57
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Jon Bertelli
Joshua
Acabo de saber que os americanos desenvolveram o primeiro gato hipoalergênico do mundo. Pra começo de conversa devo confessar que fui ver a matéria, produzida pela Agência Reuters, por pensar que se tratava de uma brincadeira de mau gosto. Mas, não. Lá esteve ele, o Joshua, salvador do direito que acreditamos ter de conviver em harmonia com os bichos, ainda que para isso a Ciência tenha que dar uma mãozinha.
É claro que não tenho dúvidas de que Joshua deve dar fim às tristezas de quem ama os bichanos e não pode conviver com eles. Mas não posso deixar de achar um absurdo que uma empresa gaste dinheiro e os neurônios de seus cientistas para “fabricar” um gato passível de ser criado por pessoas alérgicas. E quando digo fabricar, me vem logo à mente a seguinte pergunta: isso é mesmo um gato?
Aparentemente, sim. E apesar de não entender muito de gatos, acredito que a pelugem volumosa e branca de Joshua lembra a de um Angorá. O problema é que não sei se por desconfiança, achei os olhos do bichano mais vagos do que desafiantes – como costumam ser o dos outros de sua espécie. E isso aumentou a minha sensação de estranhamento, pois comecei a pensar na possibilidade da Ciência domesticar o traço que mais caracteriza a natureza dos gatos, a irreverência.
É claro que se isso acontecesse, eu veria uma empresa qualquer anunciando com alegria que meus problemas estariam resolvidos. Porque acho que gatos são animais muito atraentes, enigmáticos e inteligentes, mas por um infeliz acidente de infância, passei a ter medo deles. Mas a questão é: eu compraria um gato “fabricado” que não me despertasse o medo?
Certamente, não. Porque respeito demais a natureza das coisas e tenho profunda admiração pela liberdade que esses animais demonstram guardar para si. E por pensar assim, acho que o mais correto é que eu reserve algum dinheiro para continuar investindo na análise e, quem sabe, acabar de vez com o medo que me impede de criar gatos.
Mas para muitas pessoas, o caminho mais fácil é sempre o mais atraente. E acredito que para esse tipo de gente é absolutamente natural que se pague 4 mil dólares por um bichinho de estimação que ao contrário do gato da vizinha, não provocará acessos de espirros, vermelhidão e coceira nos olhos ou brotoejas. E pouco importa por quais torturas o bicho tenha passado ou suas imprevisíveis conseqüências. Porque há na espécie humana, de forma geral, uma inclinação medonha para a satisfação de seus próprios desejos.
Não fujo a esta regra, mas devo dizer que ainda prefiro guardar a frustração de não ter coragem de criar um gato, do que comprar um sobre medida para o meu caso. Não porque tenha desistido da vontade de ter novamente um desses felinos roçando seu pêlo pelas paredes da casa ou em minhas pernas, mas por acreditar que se há algo a ser mudado, certamente não é nos gatos. Esses silenciosos e desconfiados animais que a despeito da Ciência e do homem, guardam em sua natureza o enigma da liberdade.
Escrito por Vássia Silveira às 10h00
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Se tentas adivinhar-me, deixa que eu te diga que sim, há uma melancolia respirando nas palavras.
E no coração, um sobressalto em notas de saudade uma fúria adormecida nas entrelinhas dos verbos - dor ancestral que acalanta o susto da flor aberta no jardim.
**Para o amigo Marcos Pardim
Escrito por Vássia Silveira às 12h58
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