gavetas e janelas



Ela acordou e descobriu que estava sem rosto. Não que a cabeça lhe houvesse sido decapitada. Não, ela estava lá. Mas havia algo de morto na face, nos olhos e mesmo no nariz que antes achava arrebitado. Olhava-se no espelho e não encontrava as rugas nem tampouco a cor escura que trazia, desde a infância, sob os olhos, e que há tempos havia desistido de disfarçar. A imagem causava-lhe uma sensação nova, um desespero sem dor. E quanto mais a olhava, mais sentia a inutilidade das coisas. Por que, afinal, tinham sido os seus choros? E aonde estavam agora, se não os via marcados na pele fina e alva? Lembrou-se da cicatriz do último acidente e levou a mão na altura dos cílios. Estavam inteiros, negros e sem nenhum sinal que denotasse o ocorrido: o natural seria que a expressão da face se contraísse e que a boca, por instinto, se mantivesse aberta por alguns segundos. Mas nenhum músculo mexeu-se. E como também não era mais possível denotar naquele rosto o espanto, deixou-se ficar olhando o espelho como quem assiste – sem crer - um milagre.



Escrito por Vássia Silveira às 16h29
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Edvard Munch


Ouço o assobio do espanto
sob o manto gélido
enquanto o sangue escorre
na carne tenra

Há uma nuvem escura pairando
no silêncio das águas



Escrito por Vássia Silveira às 21h51
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Compañia Nacional de Danza

Um sopro...
e as palavras
me fogem.



Escrito por Vássia Silveira às 12h17
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Fotografia de Tessa Traeger

Se a vida escorre pelas mãos
em fios translúcidos
deixo molhados os dedos
para sentir, na umidade,
o que a fisiologia
é incapaz de explicar.



Escrito por Vássia Silveira às 10h22
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Marta Gottfried

Antes era o medo de perder
de deixar que escapasse
dos corredores silenciosos,
a tua sombra.

Como se de fato ela ali
estivesse, a tua sombra...

E como buscava sempre,
fui deixando adormecer
a vida e quase esqueci
da verdade escondida
em minhas entranhas.

Quase, quase esqueci:

Antes era o medo.



Escrito por Vássia Silveira às 23h15
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Henri Matisse

Quando chegares, encontrarás na sala o retrato que nunca pintei de ti. E ainda assim, saberás. Porque em cada canto da casa verás um altar onde ao longo dos anos depositei a espera: perceberás nos lençois da cama o perfume da entrega vã (porque ainda não eras tu quem estavas ao meu lado!) e sentirás em meus pêlos o arrepio da tua carne.

Não, não batas à porta quando chegares: entra de mansinho, que os pássaros lá fora cantarão em tua homenagem.




Escrito por Vássia Silveira às 16h28
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Camille Pissaro

A maldição

Aconteceu de eu me lembrar de uma antiga praga de família. Foi jogada por uma tia de minha avó depois da desfeita da sobrinha que desistiu de casar com o primo para juntar-se a um caminhoneiro. Minha avó não gosta de falar sobre o assunto, mas mãe conta que a velha ficou tão furiosa que despregou-se dos santos e, sem olhar para o céu, bradou à sobrinha: “Nunca serás feliz no casamento e se arrependerás amargamente da escolha que fizestes hoje”.

A história se deu no sertão nordestino. Conta-se a boca pequena que minha avó tinha se apaixonado por um marinheiro e decidido fugir com ele. O plano, no entanto, naufragou graças às intrigas de uma prima. Trazida com mala e cuia de volta à casa, minha avó teria prometido casar-se com o primeiro homem que aparecesse, desde que não fosse o primo.

Assim disse, assim fez. Quando o velho Caetano, meu avô, apareceu por aquelas bandas, ela não pensou duas vezes. Fechou os olhos para a rudeza de seus hábitos e para o fato de ser ele um mulato analfabeto – coisa tão inadmissível em sua criação que até mesmo hoje, entre os netos e bisnetos, ela insiste em dizer que o marido não era negro, e sim queimado de sol.

Escolher nunca foi uma tarefa fácil e imagino que quando somos movidos pela raiva ou o desejo de vingança, torna-se ainda mais difícil pesar as conseqüências. E se digo isso é porque minha avó, na época, vivia uma vida abastada. Era filha de fazendeiros, sabia ler e escrever – coisa rara entre as mulheres – e possuía, além das terras, muitos empregados. Uma vida que tinha tudo para ser tranqüila, não fosse a escolha movida pela frustração de ter visto o marinheiro partir sozinho e o peso da maldição...

Esta crônica termina no Nariz de Cera



Escrito por Vássia Silveira às 12h51
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Henri Matisse

Tenho uma preguiça incurável
no trato com as palavras e por
isso, só por isso, deito-me nua
sobre os seus tapetes e roço a
folha em branco como quem
lambe a ponta do nariz do outro.



Escrito por Vássia Silveira às 15h30
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Fotografia do projeto Vida de Boneco


Sou como tronco
levado pela água
fincando raízes até
a próxima alagação.




Escrito por Vássia Silveira às 23h17
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Crescem
em silêncio
as asas



Escrito por Vássia Silveira às 23h05
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