gavetas e janelas


Fotografia de Man Ray

Prometo que deixarei teu cheiro
guardado em delicados frascos
para que eu jamais esqueça que
a credulidade tem odor de almíscar.



Escrito por Vássia Silveira às 20h48
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Modigliani

Ah, a minha paixão:
joguei-a no poço
depois de lamber-lhe
a face - e os últimos
fios que sustentavam
a doce mentira.



Escrito por Vássia Silveira às 13h30
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Nestor Lampros

Eu busco a verdade
dos símbolos como
quem prega na parede
os antigos retratos:

Há uma nódoa verde
grudada em minha existência.



Escrito por Vássia Silveira às 10h48
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Se um dia eu tivesse a oportunidade, eu diria a ele que a vida é muito curta. E que não há nenhum documento com firma reconhecida que comprove outras existências, embora eu goste de pensar que isso seja possível. Diria que apesar dos destroços é preciso acreditar na mensagem lançada ao mar, dentro da garrafa - sim, ela chegará ao seu destino - e que as esquinas são salientes porque no fundo lembram as curvas da mulher amada – onde tudo são encontros e despedidas. Que na rigidez dos bancos de praça repousam os sonhos daqueles que buscam apagar da memória as lágrimas roxas vertidas aos amores, sempre tão finitos.

Se um dia eu tivesse a oportunidade, eu lhe diria que bebi muito. Que rodopiei em chão de terra e louça e que quebrei alguns frascos enquanto o esperava.



Escrito por Vássia Silveira às 20h36
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Pintura de Modigliani

 

A fuga
           no fogo
da noite

Afago
          na noite
em fogo

Afoga
         o meu desencanto.




Escrito por Vássia Silveira às 13h13
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 Nestor Lampros

Eu tento dormir, mas
os pés descobertos
provocam o arrepio
da noite

(Na tela de cristal, as imagens
se confundem com o quadro
torto da parede)

Há uma verdade
silenciosa
cortando a cidade:

O tarô me disse
que não era o mundo
quem estava
de cabeça para baixo.



Escrito por Vássia Silveira às 19h37
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Doce e linda

a violeta

vivia a chamar

borboleta

 

Mas tão braba

a borboleta

que vivia

a botar banca

pra pousar

 

na violeta:

- braba, boba, borboleta.

 

Este e outros poeminhas coloridos estão

no Cronopinhos: vale à pena conhecer o site!

 


Escrito por Vássia Silveira às 09h27
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Pintura de Gustav Klimt

O outono é mulher

 

O retrato que congelei dela foi tirado na última vez que a vi perdida na neblina das lembranças, sentada no mesmo lugar de sempre. Fazia frio, mas seus braços estavam nus. Brancos como o esquecimento. Eu não poderia dizer-lhe sobre o tempo nem tampouco nutria qualquer desejo de me aproximar. Sentia medo. Não gostava de pensar no quanto ainda me perturbava o simples fato de imaginar o ar sendo aquecido pelo hálito mascado daquela mulher.

 

Quantas vezes caí em seus caprichos? Não gosto quando me faço esta pergunta. É uma prova de que as águas ainda me perturbam e que sinto vontade de perder o ar. Por que diabos ela ainda está aqui? E eu? O que faço parado, no meio dessa tarde estúpida, olhando a languidez tatuada nos gestos dela? Tenho vontade de matá-la. Essa é a verdade que me falta.

 

Pensei em dar cabo dela no outono passado: ela vestia-se de amarelo e a cor caía-lhe tão bem que esqueci o quanto acho pavorosas as mulheres vestidas de amarelo. Mas que inferno! Deveria ter esticado em seu pescoço a linha fina que trazia nos bolsos da calça. Faltou-me coragem. Não de matá-la. Faltou-me coragem de sentir o perfume, o mesmo perfume de agora.

 

Esse perfume de morte estampado no braço direito onde ela apóia a face. Como quem deixa adormecer os sonhos sem precisar dormir. É assim que ela pensa. É assim que ela se deixa quedar enquanto voa longe em sua imaginação...

 

Ah, se eu soubesse! Se eu soubesse antes o quanto me custaria fitar-lhe, o quanto o desejo de descobrir-lhe os segredos e as nuances me tornariam seu escravo...

 

Talvez eu fugisse! E cegasse os olhos para não ser traído por eles.

 

Mas o que me resta agora? Quem sabe, o hospício. Porque não adianta rasgá-la aos pedaços: ela está entranhada em mim e nessas tardes arrastadas entre a ânsia de tocá-la e a febre de sair correndo, deixando-a repousar em sua imobilidade de pintura.

 

Uma melancólica pintura de outono.



Escrito por Vássia Silveira às 22h15
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Fotografia de Bill Brandt

Há uma dor pungente me calando a alma.

E como se à sombra das árvores o

ferro de minhas histórias se calasse constrito,

permaneço muda naquilo que tenho

para contar – porque desconfio que o barro

na beira dos rios não sustenta os alicerces

das palavras fundidas no cimento.

 



Escrito por Vássia Silveira às 07h59
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Fotografia do projeto Vida de Boneco*

El llanto de mi casa

es la ausencia del

silencio.

 

* Para saber mais do projeto, clique aqui.



Escrito por Vássia Silveira às 19h15
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Pintura de Modigliani

Não quero ser apenas leve

porque cultivo em mim

a ferida de quem desconhece

seus próprios abismos.

 



Escrito por Vássia Silveira às 20h57
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