gavetas e janelas


Pendurei teu olhos

no varal da noite

E eram tão claros

teus olhos,

que se fizeram pirilampos

na madrugada.

 



Escrito por Vássia Silveira às 15h21
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Pintura de Gustav klimt

Eu achava que podia

alcançar as nuvens

 

Mas tudo que achava,

deixei queimar com as

cinzas da carne jogada

no chão, rasgada antes

pelos urubus:

 

Sem penas, sem asas

– um pássaro morto

no vôo da inocência.

 



Escrito por Vássia Silveira às 19h59
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Fotografia de Raymond Gehman

Ela descobriu que sujar os pés é uma maneira de estar livre da mentira. Porque não há como esconder as imperfeições, nem tampouco a crueza da vida, com a poeira e a lama grudadas na pele. Era preciso, portanto, derrubar as fantasiosas paredes que a protegiam, criando uma ilusão asseada da realidade. Começou limpando as gavetas de onde saíam bilhetinhos, cartões e outros mimos. Depois entregou ao primeiro passante as vestes que um dia pareceram explicar-lhe. Jogou fora também fotografias plásticas e sorridentes, congeladas num tempo tão distante que quase havia esquecido ter dele feito parte.

 

Feita a limpeza, tratou de arrancar dos pés os sapatos. E pisando a água cristalina de um córrego, seguiu em frente sentindo nos tornozelos o barro úmido da verdade.

 



Escrito por Vássia Silveira às 13h11
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Arte de David Graux

As paredes de Kátia

Minha vizinha deixou o apartamento esta semana. Fiquei sabendo da notícia por acaso e não pude deixar de lamentar.

 

É verdade que não nos conhecíamos, mas as paredes comuns têm o poder de aproximar as mais diferentes criaturas. Prova disso é que três semanas foram o suficiente para que eu soubesse – ou fosse capaz de imaginar – das labutas da moça.

 

Não que eu tenha por hábito gastar meu tempo bisbilhotando a vida alheia, de jeito algum. O problema é que parede é coisa em que não se deve confiar. Foram feitas para guardar a casa, mas acabam por deixar escapar aquilo que muitas vezes é mais caro aos seus donos: os segredos.

 

Minha ex-vizinha, que chamarei de Kátia, tinha hábitos noturnos. Suspeitei disso na primeira noite em que dormi no novo apartamento e fui acordada, às três horas da manhã, pelos gritos de uma mulher que a procurava. Além de chamar pelo nome, a moça batia com algo metálico nas grades, nas correntes, nos vidros da janela. Tudo às três horas da manhã.

 

Acho tão sagrado esse horário que sempre imaginei que era no meio da madrugada que os anjos deixavam de nos vigiar e tiravam seus cochilos esquecidos da humanidade. Uma crença boba, saída de uma cabeça que coleciona ventos e que cultiva o hábito de catar palavras para buscar algum sentido a coisas tão terrenas e simplórias como o direito a uma boa noite de sono.

E porque sou muito apegada às coisas terrenas e simplórias, comecei a rezar para que Kátia acordasse...

 

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera

 

 



Escrito por Vássia Silveira às 20h49
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Henri Matisse

Na boca de cada palavra

há um líquido viscoso

que escorre sem piedade

queimando as entranhas

 

Escorre pelas linhas

da palma, pulsando

quente nas veias

que escancaram o tempo:

 

Há um poema arranhando

os pêlos finos da mão.

 



Escrito por Vássia Silveira às 15h54
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Pintura de Modigliani

Sorriso de fim de noite:

vestido de seda rasgado,

o corpo inerte na cama.

 



Escrito por Vássia Silveira às 20h23
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Henri Matisse

Navega lentamente no meu mar

que não tenho pressa:

gosto do teu cheiro-lavanda

e da inocência das tuas mãos...

 

Navega lentamente no meu mar

que minhas águas pedem, agora,

a calmaria da tua embarcação.

 



Escrito por Vássia Silveira às 21h37
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Fotografia de Roberto Gerometta

Um quase (ou possível) diálogo

Tenho que dizer que descobri o segredo do baú escondido no sótão. Aquele de madeira, guardado a sete chaves e encerado, manualmente, uma vez ao ano. Lembra daquele dia que a gente ficou embaixo do vão da escada esperando um descuido para subirmos e abri-lo às escondidas?

(Guardei teus cachos no sótão

e nunca mais fui buscá-los

Ah, você não lembra... Mas eu, sim. Queríamos passar a noite inteira no escuro e levaríamos apenas uns tocos de vela para iluminar o interior do baú. E você me contando aquelas histórias – tenho medo de fantasmas, já disse! (eles chegam sem nos avisar, vão habitando nossos corredores, pregando nas colunas os medos e o espanto). Vai me dizer que você não acredita? Mentira. Eu sei que é mentira. Assim como sei que naquele dia, enquanto esperávamos, tuas mãos suavam e eu percebia um leve tremor nas tuas pernas...

Eu sempre disse que não, mas

a verdade é que toda casa é

povoada de fantasmas                          

Por um momento eu quis puxar-lhe para mais perto. Gostava de sentir tua respiração no meu pescoço – que é isso, menina! Lembra da avó gritando? E eu ria, ria e saía correndo pelos bosques, pulando as pedras, pendurando-me nos cipós. Tu vinhas logo em seguida: as bochechas vermelhas, a cara emburrada. E eu rindo, rindo.

Até os bosques guardam seus

segredos, e quem um dia irá

dizê-los?

E naquele dia que eu fiquei de cama depois da chuva que a gente tentou aprisionar? Lata, nada. A gente ficou foi todo encharcado, as roupas grudando no corpo, os cabelos desalinhados, as meias dançando úmidas nos sapatos. É, e eu fiquei de cama. Duas semanas, não foi? Mas não achei ruim: assim você ficava ao meu lado, vigiando o sono fingido. Ah, como eu gostava ...

Não serei eu, molhado de chuva

esquecido dos ventos, do sopro

perdido no pescoço da infância

... O segredo?

De que me servirá a frase

após a interrogação?

Pensei que já tivesse descoberto.

Há tempos deixei de acreditar

em segredos...)

 



Escrito por Vássia Silveira às 18h09
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Pintura de Gustav Klimt

La flor de alhelí

(Para Anaís)

Yo quiero darte una flor de alhelí

una pequeña y bella flor de alhelí

 

Una flor que siento como ya

siendo tuya, ante todo, tuya:

 

Una flor que traigo junto

a mi desde el primer día que

llhoraste por el aire...

 

- Si, es tuya esta flor de alhelí, hija.

 


Escrito por Vássia Silveira às 21h26
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Pintura de John Singer Sargent

Partida

Uma pedra vermelha e redonda

foi jogada no fundo do lago:

a sombra em volta espia,

enquanto tua imagem se desfaz.

 



Escrito por Vássia Silveira às 22h04
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Pintura de Picasso

O ciúme

“Eu tinha nove anos quando a gente se encontrou: o ciúme e eu”.

 

Foi com esta frase que começou o segundo conto que ouvi. Clara leu-a impostando a voz e, quando chegou no primeiro ponto da história, parou. Ficou em silêncio, os olhos correndo o papel... Eu também fiquei quieta, acompanhando as pálpebras dela e imaginando que lembranças vinham-lhe bater à porta. Pensando que, antes dela, eu já o conhecia.


Sentiu-o, não sei se pela primeira vez, aos dez anos. Era aniversário de meu irmão mais novo e ele ganhara da vizinha um bolo confeitado em forma de caminhão. Eu nunca tinha tido uma festa de aniversário, muito menos bolos de caminhões! E o dele era tão lindo, tão colorido, tão mágico... Lembro da minha imagem pregada na mesa admirando as lanternas feitas com balas soft, os paralamas de palitos de chocolate, as rodas de biscoitos, as portas e a carroceria de waffers e os números de confetes.

 

Eu ficava ali parada, procurando algum defeito no caminhão, algo que eu pudesse apontar e dizer: cuidado, isso aí não é de verdade, não! Mas todo ele era comestível... Como podia? E cada vez que meus olhos batiam no bolo seguiam depois para a janela de onde eu via a varanda da casa da vizinha - a mesma que tinha feito o caminhão – e ali ficavam perdidos, pregando interrogações nas plantas e cadeiras de balanço.

 

O ciúme também me visitava...

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera

 



Escrito por Vássia Silveira às 12h34
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Esta fotografia faz parte do projeto Vida de Boneco*

Fim de cena

Quando as luzes apagarem-se

e eu ficar a sós,

dividirei com a dor

do instante a silenciosa

lágrima que teimou

em não ser vista.

 

E rasgarei, até o último fio,

as vestes que encobriram

meu fracasso – empilhando,

como peças de dominó,

sonho após sonho.

 

Quando as luzes apagarem-se

e eu ficar a sós,

acenderei o cigarro, quebrarei

os copos e andarei nua,

sob a tempestade.

 

 

*Vida de Boneco é uma publicação dos fotógrafos

Sérgio Vieira, Liz  Wood e Ed Viggiani. Para saber

mais do projeto, clique aqui.

 



Escrito por Vássia Silveira às 19h13
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Pintura de Gustav Klimt

Despi-me das roupas sujas

e arranquei da pele as nódoas

- Sim, podes brincar em meus

campos: voltei a ser menina.

 



Escrito por Vássia Silveira às 07h51
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Fotografia de Sondra Wampler

Liplixtibum:

Chegou à minha casa hoje, sem avisar.

Foi entrando e tomando conta dos cantos

imaginários – pregou abelhas, borboletas

e bichos estranhos – dizendo para quem

quisesse ouvir:  Liplixtibum!

 

 *Liplixtibum é o meu novo blog (ou um surto destinado 

à Clara, Anaís e a crianças de todas as idades)



Escrito por Vássia Silveira às 16h23
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Pintura de Modigliani

A pipoca, o ciúme e tchau

Ela veio com um de seus livros nas mãos, me tirou do computador e disse: agora sou eu quem vai te contar uma história. Arrastando-me para a cama, folheou as páginas, os dedos procurando a dobra, até parar no primeiro dos três contos que eu ouviria nos dias seguintes...

A pipoca

Segui-a pensando que precisava voltar ao computador. Foi quando ela falou no Tuca. Esse era o apelido do menino que sentava encolhido na cadeira e ficava no recreio em sala com a cara enterrada nos cadernos e livros. Estudava com bolsa, ela me disse. E morava na favela.

 

Ninguém ouvia a voz do Tuca, que na verdade se chamava Turíbio Carlos. A risada da sala me fez entrar devagarzinho naquele colégio de pátios com longas colunas, jardins e bancos por todos os lados. Era a primeira vez que ouviam a voz do menino. Aquela voz engasgada, entalada na curvatura dos ossos, da garganta.

 

Depois veio o sanduíche mordido com os olhos e as tarefas de matemática. E quando o Tuca falou que aos sábados a irmã fazia pipoca, criando coragem para convidar o amigo, eu já estava grudada nele. Foi nessa parte que ela parou para reclamar do barulho – o telefone estava tocando – e dizer que desse jeito não ia ler mais nada...

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera

 



Escrito por Vássia Silveira às 00h17
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