gavetas e janelas


Nestor Lampros

Pequenos mundos

Eu queria esquecer da existência

do céu vermelho e pregar meus fios

na lembrança de uma árvore

 

(Um pássaro amarelo risca o campo

deserto - ouço seu canto, estremeço:

penso no último andar daquele arranha-céu

erguido pela fúria dos homens)

 

Eu queria fugir para a mata e descobrir

os buracos de onde brotam as águas

que descem entre as pedras

 

(Um vento frio bate na janela

aberta - sinto seu sopro, estremeço:

penso no último passo daquele homem

tombado pelo desejo de eternidade)

 

Eu queria não precisar querer.

 

 

*Este poema foi inspirado na tela Pequenos

Mundos, do artista plástico Nestor Lampros

 



Escrito por Vássia Silveira às 22h22
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Fotografia de Munoz

Efêmero

Antes de morrerem,

as borboletas coloridas

me falam de você.

 



Escrito por Vássia Silveira às 08h23
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Fotografia de Roberto Gerometta

Silogismos

 

Eu sabia que ia morrer e

                                          porque sabia que ia morrer

sobrevoava os abismos

 

Eu sabia que tudo era uma farsa e

                                          porque sabia que tudo era uma farsa

acreditava

 

Eu sabia que tinha medo do escuro e

                                           porque sabia que tinha medo do escuro

 

deixei que apagassem as luzes:

                                          Eu sabia que sabia

 

e fingi que não sabia de nada.

 



Escrito por Vássia Silveira às 09h49
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Detalhe de Gustav Klimt

O colecionador de moscas

 

Tudo é uma questão de tempo – ou do que você faz com ele. Aprendi isso na infância, enquanto minha mãe cronometrava os minutos que eu deveria levar para sair da cama, trocar o pijama, escovar os dentes, tomar banho, vestir o uniforme, engolir a comida e entrar no ônibus da escola.

 

Todos os dias, a mesma rotina. As frases matinais coladas num aviso de recados imaginário e os sorrisos grudados na face gelada da mulher. Éramos sós - e não me atrevia a perguntar-lhe sobre a ausência do pai. Não que eu não tivesse curiosidade, mas porque imaginava que a interrogação lhe custaria um tempo não previsto na mesmice dos dias.

 

Ela trabalhava como datilógrafa num escritório no centro da cidade e de noite fazia bicos como garçonete. Saía logo depois do jantar, deixando na geladeira e sobre a mesa, uma variedade razoável de doces. Nunca gostei muito de doces, mas me acostumei a puxar um banco e ficar olhando as moscas que vinham pousar nos glacês e confetes.

 

O que teriam em comum as moscas e essa mulher?

 

A pergunta me veio aos 12 anos, enquanto eu assistia a lambança dos insetos no bolo de aniversário que cortamos, comemos e depois ficou no balcão da cozinha para me fazer companhia em mais uma noite de trabalho dela. 

 

Foram anos de observação até conseguir encontrar uma resposta e quando enfim encontrei-a, já era suficientemente maduro para intuir que aquele conhecimento poderia me render alegrias fortuitas e nenhuma preocupação: comecei a ter uma mulher diferente a cada dia. E todas dispostas a morrer por mim.

 

Ao contrário do que imaginam os galanteadores mais sofisticados, não basta aprender alguns sonetos e canções francesas, nem tampouco conhecer os melhores vinhos, o cinema de vanguarda, os poetas e escritores aclamados pela crítica e alguns artistas impressionistas.  Dinheiro? Fama? Isso é balela...

 

As mulheres gostam de abismos e foram treinadas pela genética para acreditar que possuem o dom da salvação. Foi aí que entraram as moscas. Foram elas que me ensinaram – em seus doces vôos para a morte - que é necessário juntar ao doce, um pouco de tristeza, uma espécie de amargura disfarçada: podem ser lembranças da infância ou mesmo uma fraqueza inconfessável.  

 

O importante é que elas, as mulheres, sintam-se não só atraídas pela languidez, como irremediavelmente presas a ela. Feito isso, voam como as moscas em direção ao abismo – e por falar em abismo, ia esquecendo o principal: aprendi que as moscas têm vida curta (é uma pena que as mulheres não saibam disso).

 



Escrito por Vássia Silveira às 08h50
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Adeus, Hollywood...

Porque estou frustrada com o desempenho do Brasil na Copa, e porque estou cansada, resolvi falar do cigarro. Isso mesmo: ando cansada da mídia me dizendo o tempo todo como devo me comportar na Copa. Essa é uma sensação que conheço bem: sinto-a todas as vezes que acendo, hoje em dia, um cigarro.

 

Não sei por que diabos o governo brasileiro resolveu dar início a essa perseguição maléfica. Primeiro foi a proibição de fumar dentro de repartições públicas – ora bolas, não são públicas? -, depois vieram os shoppings – adeus, cafezinho – e pra completar, os aeroportos. Essa última medida me deixou seriamente preocupada. Há um mês e meio, voltando para o Acre, fui obrigada a fazer conexão e não fosse uma parada em Brasília, era provável que eu tivesse tido uma síncope por passar tantas horas sem o prazeroso vício.

Além de poder fumar, a permanência no aeroporto de Brasília serviu para que eu tivesse ainda mais simpatia pela cidade e também para confirmar uma de minhas últimas suspeitas: os fumantes estão perdendo o charme de acender o cigarro...

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera



Escrito por Vássia Silveira às 09h25
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A primeira linha é um suspiro um riso solto no ar que comove e move todos os sentidos o cheiro a nuca molhada fios de cabelos enroscando-se nas idéias que seguem frouxas pela ventania minha casa aberta sem portas e janelas deixando entrar os últimos pingos d´água os pêlos eriçados da felina ferem a carne do desejo que segue torto como tortos são os caminhos que levam a lugar nenhum a brevidade da vida do instante maculando as insanas linhas da expressão do rosto da forma do pensamento e linhas e linhas e verbos e predicados sujeitos aos delírios da tela do teu olhar palavras jogadas ao nada ao lugar onde todas as coisas se encontram terreiro de fé e mandingas a lua cheia encorpando o líquido quente percorrendo as entranhas a saliva se rendendo ao ritmo frenético de bocas e línguas que se encontram e se perdem as sombras sorrindo ao acaso é o ocaso do gôzo vou me enroscar feito cobra e sorver nas entrelinhas a ânsia dos parágrafos não escritos e nem sequer desenhados.



Escrito por Vássia Silveira às 20h14
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Sim, deixei-me conduzir

e ficar: não pela verdade

dos espelhos

- mas porque resolvi deixar na porta,

ao sair,

um tapete de retalhos:

 

meus olhos no chão das tuas mentiras.

 



Escrito por Vássia Silveira às 14h41
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Pintura de Modigliani

Eu poderia te dizer,

mas descobri que o silêncio

- não aquele das palavras caladas,

mas o da inexistência das coisas –

foi o que restou.

 



Escrito por Vássia Silveira às 10h20
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Hoje acordei à procura de um lápis lilás. Quero pintar dessa cor, as estrelas. Pensei em fazer o mesmo com a metade do céu, no fim da tarde. Aí vou vestir minhas meias com listras laranja – só pra combinar com a bola de fogo amarelo-morrendo-morrendo, pendurada lá no horizonte – e pedir sorvete de uva ao sorveteiro.

 

E se não tiver de uva? Ora, peço flocos, tiro meu lápis lilás da bolsa e pinto o sorvete de uva, uvinha lilás-meio-violeta. Daí vou jogar petecas amarelas no parque e fazer força, mais muita força mesmo pra não sair usando meu lápis nas flores e plantas dos jardins...

 

Pintarei somente os bancos: de rosa-espantado. Acho que essa cor cai bem num céu meio lilás.

 



Escrito por Vássia Silveira às 19h18
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Fotografia de Xavier Zimbardo

Matar ou morrer

Tenho pensado muito em Darwin e acho que de alguma maneira ele tinha razão: tudo na vida é uma questão de sobrevivência. Cheguei a esta conclusão depois de notar que voltei a aguçar o olfato e a audição para sobreviver aos ataques das baratas - esses bichos nojentos que, para a vergonha dos cientistas, são imunes à bomba atômica.

 

Dizem que os ratos também. O problema é que ratos não voam nem tampouco entram por frestas onde mal cabe uma agulha. Por isso, e porque tenho verdadeiro pânico, treinei muito cedo dois de meus cinco sentidos para reconhecer à longa distância o barulho das asas e o cheiro das baratas.

 

É verdade que ando fora de forma, mas nada que o tempo e a ausência de um homem em casa não resolvam. Aliás, esta foi outra conclusão a que cheguei: os homens são os piores inimigos das baratas e das mulheres...

 

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera



Escrito por Vássia Silveira às 12h09
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Arte André Burian

Ela espreita a sombra da menina

que passa olhando as estrelas:

é uma história embaixo da pedra.

 



Escrito por Vássia Silveira às 19h55
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Pintura de Modigliani

Diários de chuva

Acendo um cigarro e olho a mulher do outro lado da rua. Ela suspende a saia, pula uma poça e apressa o passo embora pareça não se incomodar com a chuva. Vejo-a apertando contra o peito os papéis e penso: o que carregam essas folhas?


Talvez sejam cartas de amor ou um diário resgatado agora mesmo da casa da avó, que tem por hábito retirar do lixo as bolas de papel amassadas pela família. Ela conhece o peso das palavras impressas na eternidade e por esta razão revira a casa à procura de guardanapos, papéis de carta, bombons, bloquinhos de anotações.


Foi assim que os encontrou. E reconhecendo na caligrafia o fino traço da neta, guardou-os no baú de relíquias junto às fotografias rasgadas e remendadas, os poemas da juventude, as fitas de Nosso Senhor do Bonfim, os bilhetes de passagens e os mapas.


Um dia haveria de devolvê-los à dona...

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera

 



Escrito por Vássia Silveira às 14h05
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Pintura de Gustav Klimt

E depois de rigoroso inverno

as palavras - brancas e frias como a neve

pincelam matizes de primavera.

 



Escrito por Vássia Silveira às 19h53
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