
Pintura de Miró
Maresia
Talvez eu devesse entrar no mar e lá ficar. Era nisso que pensava naquela tarde cansada, sentado numa mesa suja de uma barraca que eu jurava ter sido escolhida ao acaso. Sentei-me na primeira mesa que avistei quando cheguei na ponta da praia e só depois, ao tirar os óculos, a decadência do lugar foi sendo escrita pelo balcão engordurado, os fiapos de palha seca que mal cobriam o teto sobre minha cabeça e pela moça sem os dois dentes da frente que me trouxe a cerveja.
Nada enfim, era um acaso. Nem mesmo a areia marrom que grudava na sola dos pés. Aqueles grãos pesados, úmidos de urina e carregados de restos de lixo dos banhistas. Homens e mulheres com a pele queimada, as carnes moles, os olhos tristes. E uma penca de moleques que molhavam os cascos na água duvidosa, inocentes que eram dos perigos e dissabores que a vida lhes reservava.
Como se em cada testa houvesse uma cruz invisível marcando a sina irreparável de um destino sem volta. Porque é isso que a miséria faz com a gente. E poucos conseguem escapar à realidade da barriga vazia, da pele grudada nos ossos e dessa tristeza carregada nos olhos como a uma mula que segue caminhos empoeirados.
E quem disser que as crianças pobres são felizes, nunca sentiu fome. Nunca dormiu no chão de terra batido, nem esqueceu de sua própria dor ouvindo as lamúrias dos irmãos mais novos a procura de algo que pesasse no estômago e que não fosse àquela água turva e fedida.
A miséria acaba cedo com a ilusão da infância. E mesmo quem, por milagre ou sorte, consegue a ela escapar, jamais deixará de ser miserável. Porque não há cama macia nem lençóis limpos que faça o corpo esquecer da umidade do chão, nem adornos que escondam as fendas abertas na alma. Que seguirá solitária em sua dor, uma ferida purulenta que o fará sentir pontadas a cada vez que um corpo estirado na calçada cruzar seu caminho.
E porque o miserável sempre se reconhece, o menino em ossos deitado a poucos metros de mim, fez queimar as minhas costas como se fossem elas que estivessem esticadas na areia quente. Minha vontade foi de chamá-lo à mesa, oferecer-lhe um prato de comida e esperar que me desse um sorriso de gratidão. Mas a esse desejo, seguiu-se a certeza de que seria um ato pusilânime. E me recolhi naquela dor medonha, rememorando os anos que sobrevivi às custas de restos de comida e das moedas que os turistas depositavam em minhas mãos, sem me olhar o tamanho ou a face.
Pedi outra cerveja à moça sem dentes e tomei a goladas, dois copos. Foi quando vi a gringa de chapéu de palha, blusa amarela e calça branca. Devia ter uns vinte anos a menos que eu, e era bonita. De longe dava para adivinhar a pele acetinada e branca, os olhos azuis, os cabelos louros enrolados num coque sob as abas do chapéu.
Estava parada olhando o mar. E assim ficou por um longo tempo. Até que seus passos seguiram firmes em direção à água. Sem olhar para trás, sem saudades, sem amores, a mulher foi vencendo as pequenas ondas e depois as maiores. Tudo tão metódico e decidido que tive de pensar que o mar não era lugar para uma mulher como aquela.
E sentindo raiva pela ignorância daquela bela figura e talvez inveja por ser ela, e não eu, que se entregava aos braços de Iemanjá, levantei-me da cadeira e comecei a gritar por socorro. Em poucos minutos, um círculo de pessoas se formou a minha volta e eu não conseguia dizer nada além das frases de náufragos apontadas para o mar. O dono da barraca, olhando na direção do meu dedo indicador, perguntou-me se eu estava bem, o que estava sentindo e fez menção de chamar uma ambulância. Senti mais uma vez o tapa da miserabilidade, da incredulidade que somos obrigados a carregar mesmo quando temos na carteira dinheiro para pagar o que vamos comer e beber.
Meu corpo todo tremia pensando nas porradas que ia distribuir aos idiotas que me cercavam enquanto a bela mulher, de pele acetinada e branca, se afogava. Mas se afogava apenas em meu desejo, no medo que tinha me empurrado para àquela praia decadente, aquela barraca miserável, a mulher sem dentes e a porra da cerveja quente que há pouco eu tomava.
Porque ao longe, vi a gringa balançar os braços e o corpo no movimento simples de retornar à praia. Trazia além do sorriso vitorioso estampado na cara, uma prenda do mar. Uma porcaria qualquer, dessas que esses gringos filhos-da-puta fazem questão de exibir quando voltam às suas terras como um troféu. Uma lembrança por ter sobrevivido aos perigos desse país exótico, onde a miséria se estende na praia.
Recuperado do susto, fui deixando que a decadência do lugar tomasse conta dos últimos pudores que guardava a respeito da vida. Pedi outra cerveja à garçonete, chamei o moleque deitado na areia, apontei o cardápio e disse: é só dizer o que quer comer que hoje a gente só sai daqui quando você criar um pouco mais de carne.
Escrito por Vássia Silveira às 08h37
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