gavetas e janelas


Frida Kahlo

Corta com lâmina fina minha carne
Deixei-a exposta assim, como
um presente: um troféu às tuas vaidades.



Escrito por Vássia Silveira às 20h37
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Fotografia Caroline Kelly

Caminho

A casa toda dorme e a manhã entra sorrateira pela varanda do meu quarto. Os passarinhos, aninhados em alguma fresta do prédio, acordam cedo. Brindam esse dia vestido de nuvens e a minha insônia com a cantoria inocente dos que podem bailar com asas e palavrear com o canto.

Da minha janela vejo a praia, as cabanas cobertas de palha, o mar. Lá longe há o horizonte e um navio, mas não tenho o tempo que queria para pensar por quais lugares passou ou passará a embarcação. Combinei caminhar na praia com minha filha mais velha e aguardo que ela escove os dentes e troque o pijama por um biquíni.

Vamos descalças, lado a lado. Além do mar, há uma enorme interrogação pairando sobre nossas cabeças...

Esta crônica termina no Nariz de Cera



Escrito por Vássia Silveira às 18h27
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Monica Stewart

Para minhas filhas, uma gaveta:

Maria caniço, Maria cabelo de palha, Maria perna torta. Nasci num risco de lua no céu. Era noite de poucas estrelas e mãe tinha medo de escuro. Então minha avó mandou que mordesse a beira do lençol para que os gritos não me deixassem com medo de nascer no escuro. Ela mordeu e eu nasci sem medo.

Depois avó me levou pra sentir o cheiro do sereno. Trouxe água do rio e molhou minha cabeça. Era um pedacinho de gente que crescia entre as pernas de vó e de mãe. Com vó aprendi a prender chuva no copo e a me entender depois com Santa Clara. A não deixar o chinelo emborcado que é pra não brincar com a desgraça e a jogar pedrinhas de dia, porque de noite é o mesmo “que estar chamando o coisa-ruim”. Com mãe conheci o nome das ervas e aprendi a contar os meses olhando a lua.

Era o tempo das brincadeiras no terreiro, dos banhos de rio com a molecada vizinha e das apostas de quem subia nas árvores mais altas. Eu não sabia correr tão rápido. Eu não nadava tão longe nem conseguia alcançar os galhos mais altos. Maria caniço, Maria cabelo de palha, Maria perna torta.

Depois veio a escola e o frio na barriga. “Cuida, menina, olha que tu chega atrasada na aula”, dizia minha mãe passando o café. E lá ia eu pelo caminho cantarolando, baixinho, os versos da cantiga que aprendi a ler e a escrever: Maria caniço, Maria cabelo de palha, Maria perna torta.

Não sei quantas vezes precisei correr até os braços de mãe ou de vó para enxugar minhas lágrimas. Nem quantas luas se passaram até que eu aprendesse outros versos e cantigas. Só sei que apesar de continuar não deixando emborcar o chinelo, o mundo tinha ficado maior.

Bem maior que o terreiro das minhas brincadeiras. Foi quando descobri que o mundo é tão misterioso quanto as margens do rio que eu não alcançava e ainda mais colorido que as árvores que quase arranham o céu... .

Maria. Esse é o meu nome e essa sou eu. Agora ninguém me chama de perna-torta. Nem acha ruim o meu cabelo ou minhas canelas finas. Agora eu sou só Maria. Maria de mãe e de vó. Maria, Maria.

 

 



Escrito por Vássia Silveira às 21h24
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Pintura Frederick Leighton

Ele trazia nas mãos as flores murchas
dos amores reinventados
e ela aceitou-as,
mesmo sabendo-as tristes.



Escrito por Vássia Silveira às 15h27
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Fotografia de Julia Margaret Cameron

E a mentira, brincadeira de querubins.



Escrito por Vássia Silveira às 12h18
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Fotografia de Frank Capri

A verdade é um sussurro de anjo



Escrito por Vássia Silveira às 17h31
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Pintura Edward Hopper

A tempestade varreu
os quatro cantos da casa
deixou-a nua,
despida das lembranças   
e dos cheiros.

Dos destroços da ilusão
salvei apenas o fino frasco – àquele
onde guardei a saudade
e o amor tranqüilo que
arrasta pra fora a lama e
faz com que os telhados
pareçam novamente
um lar.



Escrito por Vássia Silveira às 09h13
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Pintura de Miró

Maresia

Talvez eu devesse entrar no mar e lá ficar. Era nisso que pensava naquela tarde cansada, sentado numa mesa suja de uma barraca que eu jurava ter sido escolhida ao acaso. Sentei-me na primeira mesa que avistei quando cheguei na ponta da praia e só depois, ao tirar os óculos, a decadência do lugar foi sendo escrita pelo balcão engordurado, os fiapos de palha seca que mal cobriam o teto sobre minha cabeça e pela moça sem os dois dentes da frente que me trouxe a cerveja.

Nada enfim, era um acaso. Nem mesmo a areia marrom que grudava na sola dos pés. Aqueles grãos pesados, úmidos de urina e carregados de restos de lixo dos banhistas. Homens e mulheres com a pele queimada, as carnes moles, os olhos tristes. E uma penca de moleques que molhavam os cascos na água duvidosa, inocentes que eram dos perigos e dissabores que a vida lhes reservava.

Como se em cada testa houvesse uma cruz invisível marcando a sina irreparável de um destino sem volta. Porque é isso que a miséria faz com a gente. E poucos conseguem escapar à realidade da barriga vazia, da pele grudada nos ossos e dessa tristeza carregada nos olhos como a uma mula que segue caminhos empoeirados.

E quem disser que as crianças pobres são felizes, nunca sentiu fome. Nunca dormiu no chão de terra batido, nem esqueceu de sua própria dor ouvindo as lamúrias dos irmãos mais novos a procura de algo que pesasse no estômago e que não fosse àquela água turva e fedida.

A miséria acaba cedo com a ilusão da infância. E mesmo quem, por milagre ou sorte, consegue a ela escapar, jamais deixará de ser miserável. Porque não há cama macia nem lençóis limpos que faça o corpo esquecer da umidade do chão, nem adornos que escondam as fendas abertas na alma. Que seguirá solitária em sua dor, uma ferida purulenta que o fará sentir pontadas a cada vez que um corpo estirado na calçada cruzar seu caminho.

E porque o miserável sempre se reconhece, o menino em ossos deitado a poucos metros de mim, fez queimar as minhas costas como se fossem elas que estivessem esticadas na areia quente. Minha vontade foi de chamá-lo à mesa, oferecer-lhe um prato de comida e esperar que me desse um sorriso de gratidão. Mas a esse desejo, seguiu-se a certeza de que seria um ato pusilânime. E me recolhi naquela dor medonha, rememorando os anos que sobrevivi às custas de restos de comida e das moedas que os turistas depositavam em minhas mãos, sem me olhar o tamanho ou a face.

Pedi outra cerveja à moça sem dentes e tomei a goladas, dois copos. Foi quando vi a gringa de chapéu de palha, blusa amarela e calça branca. Devia ter uns vinte anos a menos que eu, e era bonita. De longe dava para adivinhar a pele acetinada e branca, os olhos azuis, os cabelos louros enrolados num coque sob as abas do chapéu.

Estava parada olhando o mar. E assim ficou por um longo tempo. Até que seus passos seguiram firmes em direção à água. Sem olhar para trás, sem saudades, sem amores, a mulher foi vencendo as pequenas ondas e depois as maiores. Tudo tão metódico e decidido que tive de pensar que o mar não era lugar para uma mulher como aquela.

E sentindo raiva pela ignorância daquela bela figura e talvez inveja por ser ela, e não eu, que se entregava aos braços de Iemanjá, levantei-me da cadeira e comecei a gritar por socorro. Em poucos minutos, um círculo de pessoas se formou a minha volta e eu não conseguia dizer nada além das frases de náufragos apontadas para o mar. O dono da barraca, olhando na direção do meu dedo indicador, perguntou-me se eu estava bem, o que estava sentindo e fez menção de chamar uma ambulância. Senti mais uma vez o tapa da miserabilidade, da incredulidade que somos obrigados a carregar mesmo quando temos na carteira dinheiro para pagar o que vamos comer e beber.

Meu corpo todo tremia pensando nas porradas que ia distribuir aos idiotas que me cercavam enquanto a bela mulher, de pele acetinada e branca, se afogava. Mas se afogava apenas em meu desejo, no medo que tinha me empurrado para àquela praia decadente, aquela barraca miserável, a mulher sem dentes e a porra da cerveja quente que há pouco eu tomava.

Porque ao longe, vi a gringa balançar os braços e o corpo no movimento simples de retornar à praia. Trazia além do sorriso vitorioso estampado na cara, uma prenda do mar. Uma porcaria qualquer, dessas que esses gringos filhos-da-puta fazem questão de exibir quando voltam às suas terras como um troféu. Uma lembrança por ter sobrevivido aos perigos desse país exótico, onde a miséria se estende na praia.

Recuperado do susto, fui deixando que a decadência do lugar tomasse conta dos últimos pudores que guardava a respeito da vida. Pedi outra cerveja à garçonete, chamei o moleque deitado na areia, apontei o cardápio e disse: é só dizer o que quer comer que hoje a gente só sai daqui quando você criar um pouco mais de carne.

 

 



Escrito por Vássia Silveira às 08h37
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Gustav Klimt

sebos & traças

Eu perdoaria tudo. Perdoaria se o tivesse encontrado nos braços da amiga. Se as mãos estivessem grudadas na ninfeta. Se as costas acariciadas fossem as da vizinha ou se os lábios roçassem a nuca, a face, a boca da estrangeira. Perdoaria se a língua estivesse entre as pernas da ex, se o sexo gritasse pela carne flácida da empregada ou se os dedos fossem enfiados na traseira da prima. Tudo menos isso... Cena infame, traição sem nome, como pôde? Como pôde fazer?

Quer saber? Então clique aqui e aproveite a nova edição temática de Escritoras Suicídas.



Escrito por Vássia Silveira às 08h28
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Vem, moço.

Precisa dizer nada, não.
Conheço as histórias,
sei das cartas, dos medos.

Portanto, joga tuas roupas aí
e vem.

Vem que eu finjo.



Escrito por Vássia Silveira às 10h39
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