gavetas e janelas


Pintura de Ludmila Curilova

Inocência Tinha vontade de arreganhar a boca e cravar no outro os dentes. Era a chuva. O barulho dela e os relâmpagos alimentavam o desejo...

Asfixia Na placa do prédio lia-se em letras discretas: especialista em fobias. Tinha ido parar ali por recomendação de um colega da firma. O moço, nos intervalos para o cafezinho, contava para quem quisesse ouvir...

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Escrito por Vássia Silveira às 16h30
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Histórias de Lolô

Há tempos venho tentando falar sobre Lolô. Nem sei se dá para considerá-lo, à sombra das regras gramaticais, como um elemento que mereça nome próprio. Mas já é da família e apareceu em casa no dia em que sumiram as chaves do carro e do portão.

Estava tudo um rebuliço só. As gavetas, os armários, as caixas espalhadas pelo quarto das crianças, as sacolas em cima da mesa. Até o baú de bugigangas de Nana foi revistado. Fizemos promessa pra São Longuinho, três pulinhos para cada, se as chaves fossem encontradas.

Foi quando Nana veio até mim e disse sem piscar os olhos: foi o Lolô, mãe. O que, filha? Foi o Lolô que pegou as chaves pra brincar. Eu poderia tê-la escutado e já ali saberia do novo membro da família...

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera



Escrito por Vássia Silveira às 20h03
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Tanajura jura que um dia criará asas. E formigas têm asas, mamãe? Só quando chove. E a chuva é tanta que pra fugir, as formigas tentam voar. Porque chuva para elas é sinal de descanso e as formigas não sabem se aquietar. Isso é papo de cigarra. Mas as cigarras, no final das contas, morrem de fome e roucas.



Escrito por Vássia Silveira às 20h38
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Ela cismou em virar árvore. Acordou com a idéia fixa depois de ter visto pela janela do quarto a última tempestade. Era manhã de domingo, devia ir à missa, mas a chuva não deixou. Pediu perdão a Deus, culpando São Pedro pela falta, e ficou pela vidraça olhando as gotas de água desenhando geometrias na rua.

Foi quando notou a árvore plantada no jardim da vizinha. Os galhos fortes balançavam ao vento e as folhas soltavam-se pelo ar formando círculos. Era redonda, a copa. Como suas formas, pensou. E jogou os braços pra cima tentando imitar o movimento das folhas. Queria desprendê-los do corpo, fixado como raízes naquele quarto úmido, com paredes mofadas e móveis velhos.

Viu a si própria como um tronco retorcido. Imaginou as penitências que o padre lhe passaria pelos pecados cometidos cotidianamente e sentindo alívio por não ter podido ir à missa e ao confessionário, colou os pés no parapeito da janela, pendeu a cabeça de lado e antes de cair como as folhas, pensou ter sido, por um segundo, como a árvore que há pouco olhava da janela.



Escrito por Vássia Silveira às 19h24
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Di Cavalcanti

O pássaro e a asma

Um pássaro solitário resolveu montar campanha em minha janela. O sol é forte lá fora. E o pássaro pia. Repetidamente, incansavelmente, como se precisasse soletrar um verbo novo. Como uma lição de Latim.

De onde estou, vejo o recorte do céu na janela: há poucas, quase nenhuma, nuvens. No chão da varanda o sol reflete riscos coloridos. E o pássaro pia. Não digo que canta porque realmente parece piar. Como um pinto. Mas não há pintos ou galinhas no edifício – esses bichinhos de penas e ossos que levamos ao fogo com a promessa de menor risco à saúde (não fosse, é claro, a gripe aviária).

Fico a pensar no piar do pássaro e nesta vida besta, minha crise de asma...

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera



Escrito por Vássia Silveira às 09h17
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O encontro

Ela estava de saltos, saia rodada, corpete com enchimento e batom vermelho.

Você não gosta de vermelho? E afastando-se um pouco, curvou a cabeça como se o movimento a protegesse dos olhos e limpou rapidamente os lábios num lencinho que carregava na bolsa. Eu também não, disse logo depois. Detesto vermelho. Acho vulgar, agressivo, não sei... Batom? Deus me livre! Nem em dia de casamento consigo usar batom vermelho.

A essa altura estava com as pernas cruzadas, os saltos apoiados um no piso e outro roçando a canela. Claro, você tem toda a razão! Combina mesmo com essas peruas que andam de salto alto fazendo barulho nas calçadas... E enquanto dizia isso, procurava desvencilhar-se das sandálias que estavam presas com tiras finas até a altura do tornozelo. Eu? De jeito nenhum...Gosto mesmo é de um bom par de chinelas, é, dessas rasteiras, baratas. Sou como você: fico arrepiada só de ver ao longe um sapato de salto. Sabia que nunca andei em um? Pois é, sempre tive medo de levar um tombo! Você está rindo, é? Amo sua risada...

Sabia que nunca encontrei alguém assim, que me entendesse, me escutasse? Não, não é que meu marido não me entenda. Mas é que...Sei lá, você diz coisas tão profundas. Ah, não me diga que você também está lendo esse livro?! Não é maravilhoso? Sim, sim, sei, também senti isso quando li essa passagem. Como é mesmo que ele dizia? Isso, isso.

Eu? Ah, estava aqui lendo umas coisas novas quando você chegou. Se eu vi o escândalo da atriz que foi parar no hospital e quase morreu por causa do silicone? Lógico. Pois é, absurdo... Não, você está coberto de razão! Não entendo mesmo essas mulheres que não conseguem se aceitar como são, precisam de efeitos, artimanhas, plásticas. Eu, não. Gosto de mim como sou. Tenho peito pequeno sim, e daí? Adoro-os do jeito que são, não uso nem sutiã. E paciência se a moda é busto avantajado: não tenho problema em ser fora de moda. Sou exatamente aquilo que visto! Hahahaha

Calça jeans... Como é que você adivinhou? Estou vestindo calça jeans.

E jogando de lado a saia, continuou teclando lambidas no computador.

 



Escrito por Vássia Silveira às 19h53
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Pintura de Arthur Kauffman

 

Quando o silêncio bisonho cruzar a sala de casa
não haverá arrastar de chinelos ou lâmpadas
acesas esquecidas no meio da noite.

Sobre a mesa posta, pouco importará a
desarmonia das cores dos pires e xícaras
e nem mesmo dos farelos de pão,
irás lembrar.

Quando silêncio bisonho cruzar a sala de casa,
estarás descalça, descabelada, largada do último
fio que sustentava tua existência.

Sobre as fotografias cuidadosamente arrumadas
pesará enorme interrogação e não pensarás nos
livros, discos ou escritos guardados minuciosamente,
ao longo dos anos, em caixas de sapato.

Quando silêncio bisonho cruzar a sala,
varrer os cantos e adentrar o quarto

Terás teu sono ausente de horas e minutos.



Escrito por Vássia Silveira às 12h03
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Di Cavalcanti

Herança

Todos os dias
levanto
madrugadinha
pra fazer pão:

Herança de mãe
- que também
levantava
madrugadinha.

Todos os dias
era a barriga encostada
na pia, as pernas em
cruz, os braços
sovando.

Madrugadinha
dava pra ver
os pescadores
saindo pro mar

E mãe ficava
maginando
a água
nas entranhas, os cabelos
de concha, o rebolado
doce de mulher do mar.

Madrugadinha dessas,
ela ouviu Pai dizer:
“larga disso, filha.
Precisa de pão, Não”.

Mas mãe já tinha
deixado o mar
lá longe
- só lambendo
a janela –
pra se misturar
na massa.

Feito eu, madrugadinha.

 

 



Escrito por Vássia Silveira às 20h09
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