gavetas e janelas


Pintura de Modigliani

Indagações de ameixas

Ela herdou da mãe a cor dos cabelos negros e os olhos grandes, compridos e redondos. Nasceu em vésperas de naufrágios conjugais. E talvez pelo desejo das asas, lhe deram o nome de Cameni - que significa pássaro, para os índios Kaxinawuá.

Chegou em nossa casa enrolada numa manta amarela, nos braços de minha mãe. Eu tinha oito anos nessa época, mais não sei dizer. Sei que minha pequena menina cresceu à sombra das casas e dos amores partidos, em busca de lar.

Nas fotografias que tenho de sua infância vejo sobressair o olhar vago. Perdido, sabe Deus, por quais mundos de fantasia. Duas ameixas pretas, cintilantes, penduradas na imensidão de um vazio sem nome. Numa, a pequena segura nas mãos uma flor do mato. A tez pálida, as mãos em concha, os olhos de ameixa e aquela imensa e rosa flor do mato caindo das mãos como um copo d’água que vai ao chão por um susto qualquer.

 

Sempre tive medo de perguntar-lhe quais eram as suas interrogações, naquele e em outros retratos. Mas não o fiz. E a pergunta que intrigava na menina cresceu nos olhos redondos da mulher, grudando não apenas em sua retina, mas nos gestos, na boca, no andar - como se cada pedrinha encontrada no meio da calçada merecesse dela um minuto de introspecção.

 

Não, minha pequena, não tenho respostas. Esta foi a frase que tantas vezes tive vontade de lhe sussurrar ao ouvidos. Mas faltou-me coragem...

 

 

Esta história termina no Nariz de Cera



Escrito por Vássia Silveira às 20h25
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Fotografia de Davide Alpestana

O que fazer?

... Vendo-a solitária, entre as velas e as flores, resolvi ocupar lugar em uma cadeira antiga que colocaram próximo ao caixão. Dali a visão de minha avó parecia um quadro fantástico de imaginação infantil. Coberta de pétalas brancas e amarelas, ela zombava do lençol que a morte lhe havia imposto com placidez. A face esbranquiçada mostrava, além das rugas, os lábios finos e murchos. Lábios que pareciam sorrir, apesar de tudo.

 Não saberia dizer se vem desta experiência a minha completa aversão a velórios. O fato é que as poucas vezes que fui novamente obrigada, pelas circunstâncias, a velar um morto veio-me uma incontrolável vontade de rir. E o riso, claro, pode ser perdoado em qualquer outra situação, desde que não seja um velório.

Foi quando aprendi que chorar a morte exige experiência em artes dramáticas...

Esta história termina no Nariz de Cera


 



Escrito por Vássia Silveira às 20h15
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Gustav Klimt

No caminho que faço para o trabalho, há uma árvore e um ninho de passarinho. As folhas do jambeiro são de um verde escuro. Não tem frutas, ainda. Mas há o ninho de passarinho. Um ninho perfeito, desses que mal se consegue enxergar. Fica no alto do jambeiro. Acima dos galhos que penduro, no caminho do trabalho, as minhas interrogações.

 

Sim, tenho por hábito pendurar interrogações em árvores. Principalmente àquelas que já não sei se espero respostas. Deixo-as lá, entre galhos e folhas, amadurecendo no sereno ininterrupto da noite.

 

Mas carecem de olhares, as minhas interrogações. De cuidados e lembranças. Por isso, costumo vigiá-las à distância. Como se um dia, pudessem cair, junto com as primeiras flores e depois os frutos, as minhas interrogações.

 



Escrito por Vássia Silveira às 21h03
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Veio de longe

esse vazio

sem nome

rosto

palavra

 

que trago no silêncio

 

De longe

a promessa

do esquecimento

 

E essa herança

fundamentada

na ausência:

 

angústia

sem nome

rosto

palavra.

 

A herança...

 

é a nova crônica no Nariz de Cera



Escrito por Vássia Silveira às 19h21
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Há um anjo de asa quebrada

E um papel em branco,

escondido sob o lençol.

 



Escrito por Vássia Silveira às 16h42
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Pastel de Werner Schultz

Teus olhos espreitam

o salto incerto

da presa - que escapa

 

Mas a noite é sempre

promessa

 

E as mãos preparam

nova armadilha:

 

Não há fome

nem fúria,

só desejo

 

E a presa calada,

quieta:

 

Tudo em um dia,

é espera.

 



Escrito por Vássia Silveira às 23h21
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Cumplicidade

 

Naquela noite, esperou por ele sentada no sofá da sala. E quando ouviu o barulho das chaves tentando acertar a fechadura, colocou-se de pé. Estou grávida. Sem olhar para trás, ele falou em tom animado: essa é a piada do ano? Mas quando virou-se para olhar Melissa, viu que não se tratava de uma brincadeira. Arrumou a pasta na estante e largou a pilha de papéis em cima da mesa. Ela não se mexeu. Seguia os movimentos dele e tentava adivinhar os próximos. Sentaram-se lado a lado. E ficaram em silêncio. Uma angústia desconhecida tomou conta dela. Era a primeira vez, em dez anos, que não sabiam o que dizer um ao outro.

O choro manso molhou o vestido transparente. Ele puxou-a para si, mas permaneceu calado. Ela limpou a face, enxugou as últimas lágrimas e se recompôs. Calma, querida, acidentes acontecem: Foi a única coisa que ouviu dele, naquela noite.

No dia seguinte avisou que marcaria consulta com o médico da prima - àquela que você não cansa de chamar de desmiolada. Ele não concordou. Ficou maluca? Temos dinheiro o suficiente para fazer as coisas direito. Ela sorriu e ele se tranqüilizou. Foi para a faculdade enquanto ela corria à cama. Estava cansada. Com sono. E uma vontade nova: olhar-se no espelho a procura de algo que denunciasse seu estado. A barriga parecia normal. Um pouco maior, talvez. E ela a esticava mais, num movimento que permitia ver a forma arredondada das mulheres-mães. Apalpava os seios e sentia-os cheios, quase pesados. Levantava então o queixo e fitava, admirada, a imagem fertilizada.

Duas semanas se passaram e ele não tocou no assunto. Mas tivesse mudado a rotina, perceberia nela a transformação. Estava mais quieta, perdia-se em pensamentos que lhe eram estranhos e deu de visitar a mãe com uma freqüência fora do comum. A velha, desconfiada, perguntou logo: o que há, minha filha? Não é nada, mãe. Deu-se por satisfeita, ou assim fingiu para não atropelar os sentimentos da filha.

No final de semana que deveriam ir à praia, preferiu ficar em casa. Estava indisposta, queria deitar-se na cama e passar o dia comendo pipocas com guaraná. Incomodado com a ausência dela, José acabou por sair da mutez estabelecida e perguntou se já havia marcado a consulta. Silêncio. Ao olhar de lâmina cravado por ela, balbuciou: sabe que estou do seu lado. Não importa qual seja a sua decisão. Ela pegou do bolso dele, o maço de cigarros. E apesar de nunca ter fumado, acendeu um e ficou jogando a fumaça por cima de suas cabeças. Amanhã, disse finalmente. Podemos ir amanhã.

A clínica era um luxo. Na sala de espera, os olhares fixos no chão ou perdidos no espaço eram a única coisa em comum nas mulheres de idades diferentes que apertavam as mãos sentadas nos bancos ou poltronas da sala. Algumas, ainda meninas, traziam consigo o olhar severo dos pais. Outras se deixavam acompanhar de uma amiga ou parente próxima. No caso dela, ele estava ali. Melissa? Ela se levantou. Ele ameaçou acompanhar o movimento, mas uma mão firme pressionou-lhe os joelhos. Ficou sentado vendo-a seguir a enfermeira por uma porta lateral.

José folheava as revistas e fingia concentração. Mas os pensamentos estavam longe, perdidos na imaginação de uma sala não fotografada na memória. Sentiu medo. Quis ligar para alguém, mas deu-se conta de que nada haviam comentado com a família. Permaneceu então, no mesmo lugar, as revistas jogadas sobre as pernas. Ia acender um cigarro, mas lembrou-se que ali não era permitido fumar. Guardou a carteira no bolso e aplacou a vontade com a falta de forças que lhe impediam os movimentos corriqueiros.

Começava a ficar aflito. Pensou em falar com a recepcionista, mas esta, provavelmente, lhe diria que a espera era prevista. Desistiu. Ouviu finalmente uma campainha tocando na parte interna do balcão. A moça atendeu. Não falava nada, apenas balançava a cabeça e procurava com os olhos o ambiente. Finalmente pararam nele, os olhos da moça. Estremeceu, mas lembrou-se que ao final seria chamado para levar Melissa até o carro. Fez menção de levantar-se, mas ela desviou o olhar. Segundos depois, uma enfermeira entrou na sala e depois de passar pelo balcão, seguiu em sua direção.

Por favor, senhor, me acompanhe. Mudo, levantou-se e caminhou até outra porta, no lado oposto à que tinha entrado Melissa. Dava para uma sala ampla, coberta de diplomas e tapetes. As poltronas de couro desenhavam a austeridade do ambiente. Sente-se, por favor, disse a moça. Ele sentou-se. Sentiu uns passos apressados e viu finalmente a figura de um jovem rapaz. Tinha uma tez brilhosa e o jaleco impecavelmente branco e sem vincos. Senhor José? Sim, sou eu. Queira sentar-se aqui, disse apontando uma cadeira disposta em frente à mesa. Saiu da poltrona onde afundava a espera e seguiu até o lugar indicado. Sinto muito, senhor José, mas... Não puderam fazer nada? Não me diga que teremos que ficar mais tempo aguardando. Acalme-se, senhor José. Não queria acalmar-se. O que está acontecendo, afinal?

O médico explicou-lhe o ocorrido e ele, tonto, segurou-se nos braços da cadeira. Quis voar na figura engomada que lhe dava a trágica notícia. Os pulsos, já fechados, latejavam a raiva e o medo. E acertariam em cheio a cara do outro, não fosse a pressa da frase que José deixou suspensa sobre a sala: Meu senhor, acidentes acontecem.

 



Escrito por Vássia Silveira às 12h58
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Pintura de Joan Miró

Ela descobriu

a Filosofia

num espelho

dentro

de uma caixa.

E o que não

sabia

é que a pergunta

por que?

já era um

filosofar

Então filosofa

a tirania

da mãe que diz

Não!

a um cachorro

porque

não gosta de bicho:

será?

 

Clara e os peixes...

 

É a nova crônica no Nariz de Cera



Escrito por Vássia Silveira às 21h40
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