gavetas e janelas


Pintura de Edward Hopper

A morte vestida de azul

A janela aberta

pintada de azul

me fascina

 

Me fascina o azul

da janela aberta

 

Fecho os olhos

para não ir

 

Fecho os olhos

para a janela

aberta.

 



Escrito por Vássia Silveira às 00h14
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 Detalhe de Gustav Klimt

A inveja e o labirinto

Labirinto é todo o lugar

que a gente entra

pra fugir

de alguma coisa,

testar se

é mesmo verdade

que o novelo nos salva

do Minotauro

ou simplesmente

esperar o tempo

passar.

A inveja, não preciso

apresentar.

Dizem que é

um dos sete

pecados capitais -

só não me perguntem

o porque. 

 

A inveja e o labirinto...

 

É a nova crônica no Nariz de Cera

 



Escrito por Vássia Silveira às 22h01
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Ventos e horas

trouxeram-me o nada.

Sorrisos de esquina na boca

gestos pálidos

luzes néon  - ainda rescendendo a éter e gozo,

matei o amor.

 



Escrito por Vássia Silveira às 22h42
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Sinfonia do silêncio

Depois de meses, recebo um e-mail da amiga (...). No corpo da mensagem, além dos votos de um feliz 2006, o silêncio. Mudez nascida na incompreensão, na incapacidade de abstrairmos nossas próprias expectativas para deixar crescer, no outro, a felicidade roubada das convenções. Penso em minha inabilidade, na dificuldade de compreender a incompreensão alheia. E deixo cair, por alguns instantes, as asas do desejo que trago em minhas mãos.

Sinto-as frouxas, arriadas ao chão. Como se carecessem de corte, minhas asas. Volto o olhar para trás e vejo o medo construindo a solidão. Uma rigidez qualquer forjada pela incerteza dos segundos. Como se a previsibilidade fosse a única receita para aquietar o coração. Mas esta não sou eu. É minha amiga. Uma mistura de querer contido, reunindo teses e preceitos. Uma vontade que se divide entre a coragem de enfiar o dedo na cobertura de bolo e a certeza de que isto seria repreensível.

Entro novamente em seu apartamento...

Esta crônica termina no Nariz de Cera   

 



Escrito por Vássia Silveira às 14h47
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 Colheres Medidas

A idéia me veio na noite em que a vi inclinar o prato fundo para tomar aos goles o resto da sopa. Não foi apenas o barulho que me provocou o asco. Mas a voracidade dela. Os cabelos emolduravam o fundo do prato, que naquele instante cobria toda a face, e as mãos crispavam-se numa espécie de gozo. A esta imagem aterradora vi passar à minha frente, unida ao desmedido prazer que minha mulher sentia ao sentar à mesa, a necessidade de matá-la. Não nego que este primeiro pensamento causou-me espanto. Mas sem dúvida era algo sem retorno: ela fazia barulho ao tomar a sopa e eu a odiava por isto.

 

Perdi o apetite e devo ter fincado no rosto alguma expressão macabra, pois tão logo desistiu de lamber o prato com migalhas de pão, pousou em mim os olhos. Não àqueles que minutos antes só enxergavam o caldo verde e os pedaços partidos de macarrão. Mas os mesmos que encontrei no dia em que perdi o último ônibus e fui obrigado a passar a madrugada num banco de praça. Fazia tempos, é verdade. Nossa vida tinha melhorado e agora vivíamos os dois como bons burgueses. Tínhamos nosso próprio apartamento, carro, empregada e ainda uma poupança que ano sim, ano não, usávamos para viajar nas férias.

 

A lembrança me fez pensar no quanto demorei para enxergá-la como agora: uma vaca esfomeada, capaz de morder os próprios dedos na tentativa de lamber os restos de açúcar. Não era gorda, a maldita. E isso só alimentava o ódio recém descoberto. Olhava para a minha barriga e pensava no esforço, nas horas que era obrigado a me dedicar aos exercícios para queimar as gorduras que o tempo insistia em me deixar de herança. Há pelo menos cinco anos eu não sabia o que era um bom churrasco. Nem tampouco uma cerveja gelada. Vivia de folhas e frutas. Enquanto ela, a despeito de minhas privações, devorava todo o tipo de veneno alimentar: tortas, farofas, toucinhos, tudo sem medida.

 

Naquela noite, porém, sua gula era mais que uma afronta. O jantar tinha sido preparado com três diferentes pratos, além da sopa. Da minha sopa. Era sábado, único dia da semana que me permito alguma extravagância. No caso, os pedaços de macarrão misturados ao caldo de legumes. Uma iguaria sem nome para um homem frugal como eu. Por isso faço questão de repetir: não tinha como ser diferente. A menos que a fome dela tivesse sido saciada com os pratos que a ela eram destinados. Mas não. Tinha que pedir a empregada um outro prato fundo para depois enchê-lo com a minha sopa. E como se não bastasse, tomá-la como quem se lambuza num sorvete: lambendo os dedos e fazendo barulho.

 

Desta imagem à idéia de acabar com tudo, passaram-se segundos. Tempo suficiente para que ela me interrogasse com os olhos e ficasse sem resposta. Tudo muito rápido e limpo. Como nos filmes que ela gostava de assistir devorando barras de chocolate.

 

Arrependimento? Nenhum. Fiz o que deveria ter feito. E digo mais: não fosse tão asquerosa a imagem dela estendida na mesa, eu teria me servido de mais sopa. E feito algum barulho, para brindar o silêncio.

 



Escrito por Vássia Silveira às 13h26
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Foto de Celso Oliveira

Sou uma pedra agora.

Matéria do tempo e das intempéries.

Veias cavadas por chuvas imemoriais

na raiz do que deve ter sido uma montanha.

Mistura de cores que confunde os olhos.

Não, não sou marrom nem vermelha.

Nem tampouco sei dizer de meu lugar de origem.

Apenas que nos descaminhos da existência, fiz-me pedra.

 

E nem a geografia me explica.



Escrito por Vássia Silveira às 11h39
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Paz Noturna

Eu pensava que finalmente teria sossego. As luzes tinham sido apagadas. A casa estava em silêncio. Todos dormiam e isso me dava a tranqüilidade para finalmente aproveitar os espaços com liberdade. Respirar tranqüila. Quem sabe ver com calma aqueles quadros novos pendurados na parede oposta à cozinha. Ou viajar no livro deixado sobre o sofá, as páginas amareladas e o delicioso cheiro de mofo, coisa envelhecida pelo tempo e o uso de muitas mãos. Mas não. Ele tinha que levantar no meio da madrugada. Esparramar-se no sofá-cama e ligar a TV usando o controle remoto. Bem que pensei em protestar. Mas com ele não daria certo. Não dava importância para a minha presença. Na verdade, costumava não notar. Fiquei um tempo imóvel, quase escondida no vão entre a sala e a cozinha. Como costumava levantar meio sonâmbulo, talvez desistisse da televisão e voltasse ao quarto. Não queria encontrá-lo agora, à meia-luz. De noite todos os encontros tornam-se perigosos. E o silêncio noturno parece perdoar as mais bizarras violências. Resolvi calar. Ficar mesmo quieta, se possível, imóvel. Como uma fera que espera o momento certo de atacar a presa. Mas no caso, eu era a presa. Imóvel. Todos os sentidos desligados, a não ser, é claro, àquele que me permitia medir a distância que nos separava. Torcia para que o sono viesse e ele desistisse de tomar o último copo de coca-cola com biscoitos. Eu estava com fome. E queria comer em paz.

 

Foram longos minutos de espera. A casa toda dormia. Menos ele.

 

Pensei em sair, entrar na sala e acabar de vez com essa agonia. Talvez o confronto resolvesse o assunto. Quem sabe com o aborrecimento de me ver ainda ali, ele largasse o controle, desligasse o aparelho e fosse dormir. Ou ler, quem sabe. Pouco me importava. Sai sem fazer barulho e fui seguindo reto em direção ao sofá. Queria mostrar-lhe minha insatisfação. Fazer-lhe entender que precisava também de um pouco de paz. Ao roçar a perna cabeluda, ele se irritou. E ia, tenho certeza, desistir de resolver nosso assunto ali. Tudo acabaria bem, não fosse a outra. Não esperava vê-la a essas horas da madrugada. Mas lá estava ela, na porta do corredor, aos berros. Um grito histérico que me deixou atordoada. Tentei fugir, mas não havia mais remédio: era a minha vida ou a honra dele. Ele pulou então do lugar onde estava e acertou-me com um único e decisivo golpe. Senti o líquido escorrendo pelo meu corpo esmagado. Minha dignidade exposta, as pernas tremelicando e todos os planos estendidos ali, naquele chão de lajotas. Arght! Foi ainda o que ouvi antes de sentir que me juntavam com uma pá e me lançavam no saco plástico da área de serviço. Deixe, querida, amanhã a empregada recolhe. Fiquei ainda um tempo pensando sobre minha existência: Minhas pernas não obedeciam mais, embora as antenas insistissem o movimento.

 

Texto originalmente publicado em Cronópios

 



Escrito por Vássia Silveira às 00h48
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