gavetas e janelas


 

Mais um ano chegando:

Há um susto de flor

brotando no silêncio

 



Escrito por Vássia Silveira às 18h09
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Modigliani

                                                                                                            

Este Natal ela passará sozinha. Sua antiga casa reduziu-se à hospitalidade de uma amiga. Perdeu a cozinha, as plantas que regava, a algazarra dos netos e a televisão que lhe acompanhava pela madrugada. As bacias de pipoca que costumava comer sem sal também ficaram para trás. Assim como os móveis, que achou melhor vender, e os livros, que deixou encaixotados à espera de um lar no futuro.

 

Neste natal, ela não sairá às compras. Não trocará os velhos copos por taças encontradas em importadoras nem se endividará para presentear a família. Não fará o arroz com passas e azeitonas. Não comprará o peru para recheá-lo com frutas nem tirará do armário a toalha bordada e branca.

 

Estaremos todos sem ela. Procurando fazer desta data um acontecimento menos doloroso. Eu lembrarei da infância, dos sapatos e das mudas de roupa que ganhava e que deveriam durar o ano inteiro. Verei a imagem dela carregando pelas ruas entulhadas de gente, as pequenas mãos...

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera

 

 



Escrito por Vássia Silveira às 00h01
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Foto de Fátima de Laguna

Não me peça

nenhuma

explicação:

os fantasmas

vivem para

confundir.

 



Escrito por Vássia Silveira às 10h21
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Picasso

Fotografias de sabão

Há um provérbio italiano que diz que “a sabedoria vem de escutar; de falar, vem o arrependimento”. Lembrei dele assim que saí da sala do diretor de jornalismo. Não sou grande conhecedora de provérbios, mas gosto dos adágios que unem à sabedoria popular uma boa pitada de humor. Mas neste caso, a lição italiana remetia a uma cena antiga, congelada ao longo dos anos.

Eu tinha dez anos de idade. Estava muito orgulhosa porque seguia meu pai em uma visita que parecia importante para ele. Íamos ao estúdio de um fotógrafo. Como jornalista, meu pai sempre fez questão de ter todas as ferramentas necessárias para o exercício da profissão. Além das dezenas de blocos de papel – escritos com caligrafia elegante e uma ordem que até hoje invejo –, ele mantinha coleções de canetas, gravadores de tamanhos diferentes e máquinas de fotografar. Aliás, mesmo com o advento da internet, ele ainda mantém as cadernetas, canetas e outros apetrechos. Confesso que essa lembrança me causa certo constrangimento. Porque, apesar de ter crescido ouvindo meu pai dizer que era uma vergonha eu não ter meu próprio gravador, nunca aprendi a lição.

 

Esta crônica termina no Nariz de Cera

 



Escrito por Vássia Silveira às 12h28
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Foto de Cameni Silveira

Diante de tanto

torpor,

estalo

o dedão do pé

para ter a certeza

de que

estou viva.

 



Escrito por Vássia Silveira às 13h50
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Infância de paixões

...quando falo em amores frustrados preciso esclarecer que não se trata apenas de nomes ou de pessoas. Mas de pequenas paixões que cultivei ao longo de minha vida e que, muitas vezes, deixaram-me a marca de uma traição. Como as aulas de balé que eu tinha, duas vezes por semana, com aquela velha senhora que já não me recordo o nome. Eu devia ter uns oito ou nove anos e morava com meus pais em uma casa de madeira, suspensa do chão por estacas, com quintal sombreado de jaqueiras e uma frondosa mangueira no portão de entrada.

 

A casa ficava próxima ao lugar onde eu tinha as aulas. Uma construção de dois andares, com garagem para três carros, varandas suspensas e um cimento branco que me oprimia tanto quanto os pés de uma criança a uma formiga. Minha professora morava ali. E duas vezes por semana, abria o enorme salão da casa para receber as alunas.

 

Elas chegavam de carro, algumas com motorista. Eu ia a pé com a minha mãe. Não era longo o caminho, mas tínhamos que descer uma enorme ladeira de paralelepípedos até dobrar na rua onde morava minha professora. O horário não ajudava muito. No meio da tarde, o sol queimava a pele e fazia escorrer pela fronte gotículas de suor. Eu pensava então nos cabelos presos no coque, na rede rosa que a professora fazia questão de verificar se estava corretamente colocada, no centro da cabeça. E pensava também nas colegas que chegariam frescas com o ar-condicionado dos carros. Os coques presos pelas mãos acostumadas das babás e a roupa impecavelmente arrumada e limpa...

 

Esta história termina no Nariz de Cera

 

 



Escrito por Vássia Silveira às 20h40
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Pintura de Edvard Munch

Flor de Virgínia

Uma coloração outonal é uma preparação de morte, não de vida. E no caso das flores, uma morte anunciada que se disfarça na renovação das cores. Dormir é também morrer. E que importa saber que as flores dormem para nascer depois?

 

A pergunta era de Virgínia. Estava parada no meio do quarto, no meio das velas, no meio da linha divisória entre o ontem e o amanhã. Adivinhava a felicidade roubada pelo tempo. E em cada gotícula de cera pregada no chão, via um pedaço de sonho morto. Uma lembrança dolorida que agora se desmanchava branca, quase translúcida, dado as lágrimas que rolavam quietas como a existência das velas.

 

Pela porta entreaberta do banheiro, ouvia o som da água escorrendo pelo corpo do amante, pelo ralo. No silêncio das angústias desenhadas por Virgínia, a água era um fundo de violinos. Um som melancólico capaz de arrancar dos rudes, lamúrias sem nome. Pensou em sair correndo, antes que o homem surgisse enrolado na toalha branca deixada pela camareira. A toalha branca. Por que não os lençóis? Quis matar a camareira, o gerente, o dono daquele lugar.

 

Ela não lembrava a origem nem tampouco conseguia saber dos motivos que a impediam de deitar nos lençóis. Eram limpos, macios e exalavam um perfume levemente adocicado. Os tons de rosa e laranja se misturavam para formar uma terceira cor, que ela não sabia nomear. Mas isso também não lhe incomodava. O que lhe oprimia era aquela luz outonal e os riscos violetas pintados nos lençóis coloridos.

 

As coxas apertavam o sexo e ela pensava em fugir. Há quanto tempo esperava por aquele momento? Caminhou até a beirada da cama. Agachou-se num canto e quis acariciar o lençol numa tentativa desesperada de permanência. Mas haviam as flores. Poderiam ser elefantes, gravetos, balões, sapatos. Mas não. Eram flores. Daquelas miudinhas, que lembravam as violetas.

 

Com uma mistura de medo e fúria, testou os conhecimentos matemáticos dividindo os pequenos desenhos em colunas simétricas. Quatro colunas diagonais. Dez flores em cada coluna. Quarenta pequenos pedaços que lembravam violetas.

 

Contadas as flores de sua desgraça, soluçou baixinho ao mesmo tempo em que ouvia a torneira do chuveiro ficar em silêncio. Imaginou como seria o corpo do amante naquela cama. E olhando as minúsculas flores que lembravam as violetas, levantou-se, arrastou a bolsa pelo quarto, abriu a porta e foi embora. Deixando para trás, as flores e o amante.

 



Escrito por Vássia Silveira às 13h11
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O Anjo

Um anjo azul resolveu colar em meu lado direito. Suas vestes roçaram meus braços até a extensão de minhas mãos. Os dedos paralisaram e as teclas ficaram silenciosas. Pedi-lhe que fosse embora, que me deixasse só com os meus demônios. Mas o anjo não escutou. Ou fingiu não escutar. Supliquei-lhe, então. Falei da dor lambida em minhas palavras. Da angústia alimentada na imensidão do nada. Da eterna interrogação. Dos pesadelos, da escuridão medida dos soluços inventados, das figuras torpes, do grito medonho de uma mulher escarlate, das brumas, dos vendavais, dos naufrágios e tempestades. Mostrei-lhe as feridas expostas, as marcas escondidas nas linhas finas dos lábios, as bruxarias, feitiços, mandingas.  Contei-lhe os segredos mais assustadores, as vilanias, as heresias. Mostrei-lhe o céu cinzento. Os restos do homem que se jogou do décimo andar, os vermes rastejando e os urubus famintos.

 

Colado em meu lado direito, o anjo azul tirou suas vestes. E riu. E riu, e riu, colado em meu lado direito, o anjo azul.

 



Escrito por Vássia Silveira às 11h43
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Salvador Dalí

Ando sozinha no meio do salão

enquanto alegres fantasmas

tecem suas teias

de frágeis enganos

 

Nesta bizarra festa,

sou como a bruma

desfalecendo na aurora

 

Uma promessa insistente

de luz e sombras

entre o amanhecer

e o cair da tarde

 

Meu copo transborda

de um líquido que nasce

e morre em minhas entranhas

 

E minhas vestes já não cobrem

nada, além dos desejos

escondidos sob o manto

da indiferença necessária



Escrito por Vássia Silveira às 10h11
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