
Van Gogh
Não me diga para arrumar o quarto nem se atreva a dobrar os joelhos para lembrar da poeira embaixo da cama. Sim, quero os lençóis arrastando no chão, salpicando a madeira com os tons encardidos do que antes era azul. Desista da rede. Resolvi pendurar nos armadores as camisas e calças que ainda mandarei para a lavanderia. Quero os livros empilhados, assim, como estão. Não me importam também as sandálias espalhadas, separadas quase propositalmente de seus pares. Se quiseres, deixo-as atrás da porta. Mas não toque nos quadros tortos. Não mexa também no porta-retrato, porque não me incomoda o pedaço de gesso que quebrou na última faxina. E por favor, não troque a lâmpada.
Gosto de pintá-lo assim, na penumbra da desordem. Ao final, vejo que as cores tornam-se mais vivas. Portanto, não me diga para arrumar o quarto.
Escrito por Vássia Silveira às 22h48
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Arte de Abelardo Alves
Asas e ovos
A imagem me veio no auge da aflição da tela em branco. Nenhuma mensagem, nenhuma palavra. Apenas as dezenas de rostos e olhos congelados nos tons amarelo-vermelho-verde. Eu andaria por uma calçada deserta – porque ruas seriam perigosas – e me espantaria com as sombras dos arranha-céus. Meu reflexo multiplicado nas vitrines provocaria o susto. Esqueceria dos ovos carregados, até então, com o cuidado de quem juntou as últimas moedas para comprar meia dúzia. Desejaria ter asas. Subiria, sonâmbula, os degraus expostos de uma escada de incêndio. Em minha retina grudaria a nuvem mais alta que a vista alcançou. E uma vez mais esqueceria os ovos. Abriria os braços e acabaria ao chão, sem asas e ovos.
Escrito por Vássia Silveira às 11h04
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Arte de Alex Valauri
O suplício de uma aprendiz de navegante
Não bastasse as noites insones e os suores nas mãos para reunir coragem de tirar das gavetas alguns escritos e colocá-los em um site (www.anaesuasmulheres.com), descobri que o mar me reserva outros sustos. Que para a ausência do leitor, não adiantam as carrancas. E que o silêncio das palavras sussurradas para o vento, dói na alma. O pânico me toma por completo e chego a largar o leme no auge de algumas tempestades.
Águas turvas ameaçam minha calma. Penso em mudar a direção, correr o casco até o primeiro pedaço de chão que encontrar no meio do nada. Crio um blog. Não como o outro, quase inanimado no meio de tantas mulheres... Abro gavetas e janelas na esperança de que um bote salva-vidas me resgate. Mas não há outro remédio para um aprendiz senão recorrer aos mapas de navegação. Tão claros, tão limpos... Que sujeiras mancham as linhas que tracei?
A noite no mar é solitária. Ouço vozes, mas não vejo as sombras. O escuro é minha única companhia. O nada.
Escrito por Vássia Silveira às 10h33
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Pés descalços
Ela tinha horror aos pés. Achava-os tortos, achatados, os dedos muito longos, as unhas tristes. E como se não bastasse, tinham joanetes. Ela não gostava desse nome, dava-lhe a sensação de que carregava junto ao solo, uma espécie de ceifadeira. Por isso, dizia a si mesma que tinha joaninhas nos pés. Achava mais simpático e dava a imaginar duas bolas coloridas em cada uma das extremidades. Duas bolas vermelhas e doloridas, que preferia chamar de joaninhas. De resto, estava satisfeita. Os cabelos caiam em cachos dourados pelos ombros, os seios eram fartos, as ancas convidativas e a barriga lisa. Mas tinham os pés, aqueles pés tortos, achatados e com joaninhas. Escondia-os sempre. Por isso não ia à praia, piscina ou a casas que decretavam na porta o hábito de deixar os sapatos. Sandálias? Não as comprava em hipótese alguma e caso ganhasse de presente um par, tratava de empilhá-lo na parte superior do armário. E se não os dava a ninguém é porque gostava de admirá-los em segredo, naquela hora da noite em que aos barulhos da casa, soma-se o som do arrastar de chinelos. Marilho não estranhava. Estavam juntos há dois anos e os encontros eram sempre no atropelo das horas em que o pai estava na fábrica. Com tão pouco tempo para gozar a tranqüilidade do amor, já que ele trabalhava e ela estudava, enroscavam-se nas pilastras do estacionamento, no banco da frente do carro ou no elevador de serviço. Tudo tão rápido que a última coisa que iriam pensar era em tirar os sapatos.
Mas os anos passaram-se rápidos e o pai resolveu que era a hora de acabar com aquela sem-vergonhice sem nome. Chamou os dois e deu um ultimato: se não é para casar, acabem de vez com esta história. Marilho nem piscou, ficou logo de pé e mesmo gaguejando pediu a mão da mulher que sonhava mãe de seus futuros rebentos. Ela, coitada, mal teve tempo de comemorar. Lembrou-se logo dos pés e da ameaça que a intimidade matrimonial representava. Ficou sem saber onde pôr as mãos, tão finas e delicadas. Sorriu amarelo quando o pai deu-lhe o abraço carinhoso e quase desmaiou com o olhar triunfante do namorado. Nesta noite não dormiu. E antes que Marilho o pudesse fazer, ligou para o rapaz e pediu-lhe que nunca mais pusesse os pés em sua casa. Sem muitas explicações, disse-lhe que não se preocupasse com o pai e que fosse homem o bastante para não importuná-la com choramingos. Dado o recado, arrancou da parede o fio do telefone, trancou com duas voltas a porta do quarto, apagou a luz e ficou na penumbra tateando a coleção de sandálias.
Texto originalmente publicado em Cronópios
Escrito por Vássia Silveira às 00h28
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O amante
Era a terceira vez, naquele dia, que se enroscavam furtivamente. Nela, as mãos suadas denunciavam ao amante a languidez necessária. Entregava-se ávida e aflita ao instante de prazer. E nas escadas sujas, vigiava as sombras. Como das outras vezes, era um encontro rápido. Desses que mal dá tempo de recompor o semblante ou a roupa. E a mancha na camisa branca acabaria por denunciá-la, não fosse o cuidado de carregar no bolso da calça, lenços umedecidos. Cheirinho de neném. Um perfume que a resgatava do êxtase, jogando-a no chão espalhado de culpas. Sentia raiva de si mesma. Queria fugir, voltar ao controle da situação. Mas o corpo lhe negava esse direito. E amolecia cada vez mais. As pernas, quase arquejando, os lábios úmidos, a mão nervosa cravando no outro a pressa. Controle-se. Vai acabar chegando alguém. Talvez as crianças, ou mesmo o marido. Mas não, era um desejo incontrolável de entrega. Sentada ainda nos degraus, jogou no saco escuro preso ao lixeiro o papel alumínio que segundos atrás lambia trêmula. E suspirando, rendeu-se uma vez mais ao encontro. Prendeu os cabelos, limpou os dedos e procurou esconder em baixo das sandálias os restos espalhados no piso. E finalmente sacou da bolsa mais um chocolate.
O último do dia, prometeu a si mesma.
Texto publicado em Bestiário
Escrito por Vássia Silveira às 13h44
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Silencio es palabra de mi vocabulario. Habiendo trabajado la música, la he usado más que los hombres de otros oficios. Sé cómo puede especularse con el silencio; cómo se le mide y encuadra. Pero ahora, sentado en esta piedra, vivo el silencio; un silencio venido de tan lejos, espeso de tantos silencios, que en él cobraría la palabra un fragor de creación.
Alejo Carpentier, Los pasos perdidos.
Escrito por Vássia Silveira às 13h13
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Pintura Ana Paula Esteves
http://www.caleidoscopio.art.br/anapaulaesteve/index.htm
A bola de Beatriz
Quem disse que uma bola podia ser apenas uma bola? Para Beatriz era um estado de infinita agonia. Um nascer e morrer que se prolongava na memória de outras existências. Um círculo vicioso, uma maldição. A vida de Beatriz era uma bola.
Tentava não sucumbir, mas as armas que supunha ter eram inofensivas diante da grandeza dos acontecimentos. Por esta razão, temia a circunferência. E imprimia nas horas cálidas, um traço desajeitado que sugeria a forma de um retângulo. Gostava desta palavra. Lembrava-lhe caixa, concretude. Queria o acaso retangular. Como se assim pudesse haver previsibilidade. O previsível era, enfim, a salvação.
Sonhava palavras inexistentes na tentativa de renomear o mundo. Princablatz! O que poderia denominar esta palavra? Perdia tardes e noites até encontrar resposta plausível: solidão. Estado de estar só, princablatz!
Estar só é uma questão de ponto de vista. Beatriz nunca estava só.
Um perfume, no entanto, podia levá-la à solidão. Era um mistério que não saberia explicar. Uma necessidade de proteção, de fechar os ouvidos para a dureza de algumas palavras. Princablatz!
Como naquela tarde quando ao ouvir o barulho da porta que se fechava, correu à sala de estar. Chegara tarde. A discussão, intercalada por longos silêncios de Beatriz, tinha começado por uma bobagem qualquer. Já nem lembrava, na verdade, se era a imagem do livro ou o seu conteúdo, o motivo da briga. E o que importava agora?
Para Beatriz o silêncio era menos uma armadura do que a necessidade de colocar em ordem os pensamentos. Mas Armando não via da mesma maneira. Para ele, o silêncio de Beatriz era um tapa. Desses que ferem sem deixar marcas.
Plantada no meio da sala, Beatriz sentia agora o perfume amadeirado deixado por Armando. Nas paredes azuladas, os retratos já não lhe diziam nada: A bola de beatriz sugeria um jogo. E uma certa inapetência para as regras. Jogava presa a uma palavra não renomeada: fim. Imagem retangular...
... O fim para Beatriz era quase um verbo: pregava-se a ele na esperança de sobrevivência.
Escrito por Vássia Silveira às 23h25
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Quem tem medo de Blog?
Há 10 anos recebi um ultimato na redação da Folha do Amapá, jornal que eu começava a escrever: ou larga a máquina ou vai ter que mudar de profissão. Era o computador que tinha chegado para acabar com o romance que eu mantinha, desde os 15, com a minha Olivetti. É claro que aprendi a mexer com o bicho – e gostei tanto que hoje, quando sou obrigada a deixar algum bilhete rápido para a secretária, fico pensando se não era melhor gastar mesmo a tinta da impressora.
Bom, resolvida essa história com o computador, passei a achar a vida relativamente simples: o que eu precisava era do programa Word, uma tela em branco e inspiração (ou necessidade mesmo) para escrever. Até aí, tudo bem. O problema é que de uns tempos para cá, percebi que uma nova comunicação estava surgindo na Internet. Primeiro foram os amigos que enviavam para o e-mail o endereço de um site pessoal e, mais recentemente, vieram os blogs.
É engraçado que aos 34, os blogs me causem a mesma sensação de estranheza de quando fui obrigada a desvendar o computador. Há pelo menos três anos venho resistindo a eles. Por puro medo, mesmo. Não conseguia compreender o que levava uma pessoa a escrever um diário virtual...
Vá, lá! Eu também não faço a menor idéia o porquê estou escrevendo um blog. E nem sei se vou continuar! O problema é que acabei me rendendo às provocações de Alú que nos últimos meses me repetia todos os dias: você precisa dar a cara à tapa. Bom, adoro desafios! Por isso, resolvi dar a cara, os textos e as imprudências literárias até então guardadas em gavetas.
O que espero dessa aventura? Só uma coisa: que percebido o erro, eu possa contar com um recurso tão eficiente quanto a tecla delete do computador.
Escrito por Vássia Silveira às 12h32
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Sinto saudades de um tempo que eu não vivi. O tempo sem televisão e sem noticiários ao vivo. O tempo das cadeiras nas calçadas, das moças nas janelas e dos casais nos portões. Sinto saudades daquele tempo em que as cartas custavam a chegar ou, mais ainda, daquele em que talvez se extraviassem. Do tempo em que os jornais do dia seguinte eram discutidos nas madrugadas insones, em mesas de bares. Sinto saudades daquele tempo em que não havia a urgência em diluir os acontecimentos do outro lado da rua, do bairro, da cidade, do país, do mundo. Não porquê os acontecimentos pudessem esperar. Éramos nós que podíamos esperar. Esperar pelas notícias do dia seguinte, pelas cartas dos amigos, pelas discussões noturnas e intermináveis acerca dos últimos acontecimentos. Sinto saudades do tempo que havia tempo.
Escrito por Vássia Silveira às 12h26
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A mulher, o bimotor e uma cidade desconhecida
Primeiro ela planou, sentiu-se uma andorinha, e até pensou que estava mirando, mas veio a pista, o pouso, a cabeça quase batendo no teto, e as piadas de um possível acidente, ah, as piadas, ela resolveu apagá-las da memória, achou melhor descer as escadas e pisar em terra firme, seguir para o hotel e esquecer os caminhos, e foi isso que fez, deixou que o esquecimento lhe tomasse à mão, subiu e desceu novas escadas, andou pelas calçadas, deslumbrou-se com o vento que roçava o rosto, talvez porque isso lhe fizesse lembrar de algum outro toque, são as armadilhas da memória, ou da saudade, não, não, a saudade só chega quando se está falando de futuro, lembrou-se rapidamente, e seguiu para o encontro consigo mesma, era noite e chovia, as ruas estavam líquidas, misteriosas, lembrou-se de uma imagem antiga, alguma música de Montserrat, com os cabelos molhados seguiu caminhando por lugares desconhecidos, sentiu alguma vontade de chorar, que vinha da alegria de sentir-se livre, porque liberdade é andar sozinha pelas ruas, e ao mesmo tempo, sentir-se preenchida, pensou, é um encontro silencioso, quase mágico, ela achou que seria bom voar, cortar o céu escuro de olhos fechados, jogar-se no despenhadeiro, como Ícaro, não, as asas não derreteriam, não acredita no mesmo sonho, ela procura por uma luz em sua própria escuridão, sabe que não é fácil, mas a chuva, o silêncio, as ruas molhadas, a camisa branca colada no corpo, os sapatos encharcados, tudo lhe faz pensar que é possível descobrir, ela escuta vozes distantes, lembra do cheiro de mar, dos olhos de suas meninas, de um toque, um beijo, um abraço na noite, novamente o vento embaraça os cabelos, é preciso amarrá-los, ela pensa, mas resolve deixá-los soltos, como soltos ela gostaria que estivessem os gestos, os sonhos, os passos, lembrou-se então que já haviam lhe dito que caminhava como se chutasse marolas na praia, marolas na praia, considere isso uma interrogação, é uma imagem leve, fez com que ela pensasse numa borboleta, em uma cobra encantando a presa, ela quis ser cobra e borboleta, porque queria voar com leveza, graça, e também encantar, mais uma vez pensou no futuro, e sorriu, sentiu-se abraçada, enrolada em lençóis nos quais depositava seu perfume, sob olhares que perscrutavam-lhe a alma e os segredos, porque são tão perturbadores os olhos, ela pensou, e antes que lhe viesse à mente a resposta, o relógio soou, era hora de voltar para casa.
Escrito por Vássia Silveira às 12h26
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Mania de Outdoor
Tenho mania de olhar outdoor. Como pedestre, nem tanto. Não que me falte a vontade, mas é que acho perigoso, com os motoristas que temos no país, andar na rua olhando pra cima. Quando estou de carro, é outra história. Primeiro porque raramente dirijo. O que me dá sempre a chance de ficar de carona, na maior bobeira, pensando na vida ou olhando a paisagem inventada dos outdoors espalhados pela cidade.
E quando o assunto é outdoor, gosto de quase tudo: das belas modelos às propagandas de universidades ou cursinhos preparatórios de concursos. O primeiro porque sempre tem uma peça que a gente imagina que em nosso guarda-roupa ficaria perfeita. E o segundo, bem, porque na maioria das vezes nos dão a chance de treinar a nossa tão surrada gramática.
E é exatamente por causa da gramática que tenho pensado seriamente em abrir guerra contra os outdoors. Não olhar para mais nenhum. Vigiar os olhos. A cabeça. Sim, a ca-be-ça: “uma das grandes divisões do corpo humano constituída pelo crânio e pela face e que contém o cérebro e os órgãos da visão, audição, olfato e paladar”. Bom, pelo menos é assim que está no Houaiss e aposto que o Aurélio não discorda. E essa, é claro, é apenas uma das definições da palavra - porque não vou entrar no mérito de discutir derivações de sentido por metonímia ou metáforas.
Pois bem, voltando aos outdoors: tudo começou num passeio de domingo com a família. Vínhamos de carro e eu, com a mania de sempre, estava com os olhos (e a cabeça) voltados para fora. Foi quando vi um enorme e colorido outdoor. Desses que é impossível passarmos pela frente e não prestar atenção. Era uma propaganda de guaraná: ABRA A KBÇA. GUARANÁ É KUAT. Putz! Demorei uns cinco minutos, acho, para entender que a nova inteligência da propaganda estava sugerindo, metaforicamente, que abríssemos nossas mentes para o sabor do guaraná. Tudo bem. Confesso que já passei dos trinta, mas kbça é demais para a minha cabeça!
Sei também que essa pérola é fichinha perto das aberrações que vêem sendo cometidas com a nossa Língua nos chats da Internet. Não que eu seja puritana. Não é nada disso. Respeito a velocidade em que vivemos e sei que se vc está com pressa, pode apenas mandar um bj para o amigo, que ele vai entender. O problema é que acho o Português uma língua belíssima. Vivo apanhando dela, é verdade, mas não me canso de fazer uso de suas regras para me comunicar com o mundo.
Por isso acho razoável que me incomode uma marca tão poderosa como a coca-cola não fazer seus publicitários quebrarem a cabeça para encontrar uma maneira inteligente e criativa de vender seu guaraná. Porque vender guaraná para a moçada, desse jeito, é fácil. Quero ver é convencer os financiadores da festa a abrirem suas carteiras... Eu, por exemplo, posso até abrir minha cabeça e achar natural que minha filha mais velha, de oito anos, e minha enteada, de 12, troquem mensagens usando uma linguagem quase indecifrável para mim. Agora abrir a cabeça para uma publicidade que parece incentivar a preguiça da descoberta da leitura e da escrita, isso não dá, não. E por um motivo bem simples: não sei se estou preparada para receber bilhetinhos futuros de minhas filhas escritos em códigos que não figuram no dicionário.
Escrito por Vássia Silveira às 12h25
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Preciso buscar no silêncio, a palavra ainda não construída. Um verbo despido de ação, jogado no limbo das coisas que já foram ou que ainda estão porvir. A frase não completada pela pressa. E aquela última vírgula, na qual pregou-se minha existência. Preciso buscar no silêncio.
Escrito por Vássia Silveira às 12h23
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Azul da cor do mar (?)
A primeira coisa que ouvi quando cheguei aqui foi sobre as águas verdes das praias cearenses. Como tinha acabado de deixar para trás a densidade da floresta Amazônica, corri à varanda do apartamento percorrendo a extensão de águas salgadas à procura da coloração que carrego nas entranhas amazônidas. Mas tudo o que vi - e continuo vendo - é um mar azulado, desses azuis que pintam as saias das meninas românticas e que varia, em fins de tarde, para um azulesmaecidocinza, cor de sonhos descansando na praia.
Imagino que muita gente deva pensar que sou maluca, ou na melhor das hipóteses, daltônica. É possível que sim. Mas acredito que ambas as hipóteses me servem para falar sobre a dúvida. Gosto de pensar nisso quando me debruço sobre as imagens porque acredito que a dúvida é a melhor companheira da contemplação. Levo isso tão a sério que fui incapaz de dizer à minha filha mais velha, que algumas vezes me entregou desenhos com sóis pintados de verde musgo, que a cor usada deveria ser o amarelo (?). E guardo até hoje o sol verdinho pintado por Clara, os cachorros azuis e as casinhas coloridas com bolinhas.
Bom, mas voltemos à cor das águas cearenses. Suponhamos que todos nós guardamos, lá no fundinho, a liberdade das crianças que ainda não aprenderam o desenho da casa com telhado vermelho, árvores verdes no jardim e sol amarelo boiando num céu de nuvens redondas e azuis... Que dentro de cada um, há um espaço tecido de sonho e liberdade que nos permite olhar um poste de maneiras diferentes... E, o principal, que a verdade de um não invalida, necessariamente, a verdade do outro. Suponhamos, ainda, que o daltonismo não abarque toda a verdade do azul que vejo no mar cearense. Ou que o verde reconhecido nos textos turísticos sobre as praias da cidade não seja sinônimo de uma verdade irrefutável. Onde estaria a razão, nesse caso? Ou a verdade?
Essas são perguntas que surgem a cada momento que confrontamos nosso olhar com o de outra pessoa. E nesse caso, não me refiro apenas à contemplação de uma paisagem, mas da maneira mesmo de ver o mundo: o que é essencial para mim pode ser dispensável para o meu vizinho. Acredito que o nosso olhar é a maior bandeira que carregamos da liberdade e que quanto mais livres somos para ver e interpretar, mas inteiros e singulares nos afirmamos no mundo das imagens.
Por isso, não teimo nem tento convencer ninguém sobre o azul que vejo da minha janela. Busco apenas a liberdade da criança que pinta de roxo uma vaca, para me banhar, pintar e contemplar - numa rotina litúrgica - a beleza azul do mar cearense.
Escrito por Vássia Silveira às 12h14
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