gavetas e janelas




Gustav Klimt

E do teu cheiro
não me recordo
além do éter

Assim também
o fel
das palavras insanas:
tua boca.

Não, tu não habitas os meus sonhos.

 



Escrito por Vássia Silveira às 16h45
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Picasso

Coleciono desejos,
sustentando abismos  
em céu indissolúvel.



Escrito por Vássia Silveira às 21h40
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Gustav Klimt

Sinto o perfume distante de sua sombra, essa mancha escura que penetra o vazio da noite grudando, nas paredes, a insônia. Meus lençóis usurpam a esperança quieta dos passos. E ferindo a impossibilidade, deixo-me rasgar inteira com fúria, fome, descaso. Há na carne um vazio de odores. Como se os dedos tivessem levado consigo, minha essência.



Escrito por Vássia Silveira às 14h11
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Salvador Dali

As chuvas
me arrastam
Deserto



Escrito por Vássia Silveira às 01h00
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Pintura de Nestor Lampros

Os sussurros do vento
me contam histórias antigas,

tão antigas quanto o sulco
que fere a face branca

de minha avó.

 

E as gotas úmidas do orvalho
me lembram as noites escuras,
o grito espantado e os
mistérios que dormem nas sombras
das grandes árvores.

 

Trago em mim a ancestralidade da floresta

 



Escrito por Vássia Silveira às 12h11
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Fotografia de Liz Wood

 

Gosto de gente, bichos soltos e mato.

Adoro o mar, a calma e o silêncio.

Mas algumas vezes, sinto-me inteira

no burburinho de uma grande cidade.

 



Escrito por Vássia Silveira às 19h58
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Frida Khalo

 

Ainda trôpega
da bofetada
a sombra segue
roçando o asfalto
riscando a calçada
para aquecer o chão.
  



Escrito por Vássia Silveira às 20h30
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Auguste Macke

Meu silêncio é feito
grão de areia colorida
- daquelas que escorrem
quietas, na ampulheta.



Escrito por Vássia Silveira às 13h49
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Auguste Rodin

Urgências

É cedo ainda, mas as urgências diárias lhe roubam o sono. Pesa-lhe a preocupação de colocar os sacos para fora, não perdendo a passagem do caminhão de lixo. E ainda a comida dos gatos que, por esquecimento, ficaram à deriva durante toda a noite. Seus miados atravessam as paredes ainda frias da madrugada e chegam até seus ouvidos feito lamento de filho. Ela lembra, então, que nunca quis gatos em casa. Mas agora que os tem, não consegue simplesmente virar-lhes as costas...

Esta crônica continua no Mínimo Múltiplo

 

 



Escrito por Vássia Silveira às 11h08
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April Harrison


Madrugada

 

Roça teu corpo e derrama
- sobre solitário lençol -
palavras úmidas
de silêncio e ternura.



Escrito por Vássia Silveira às 20h58
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Robert Sengstacke

Consciência de Ameba

“Na próxima encarnação, quero ser uma ameba”. Confesso, sem nenhum orgulho, que esta declaração foi dada por mim na última vez em que reuni amigos em casa. Pelo menos é o que garantem alguns dos presentes, já que a recordação mais confiável que guardo do episódio – quando foram consumidas três caixas de cervejas – é a de que discutíamos sobre a relação do conhecimento com a felicidade...


Esta crônica continua no Mínimo Múltiplo

 



Escrito por Vássia Silveira às 20h38
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Henri Matisse

Abril sem fumaça

Gosto de abril. Descobri que é perfeito na hora de preparar o espírito e a casa para os dias frios que logo chegarão. Lavar cobertores, arrumar agasalhos, espalhar tapetes pelos quartos. Faz-me recordar do tear. Aquele que passou todo o verão escondido e agora parece sussurrar: “Ainda posso cumprir as promessas do inverno passado”...


Esta crônica continua no Mínimo Múltiplo



Escrito por Vássia Silveira às 10h55
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Cydney Conger

Era pequeno e
úmido o segredo

 

Guardei-o no aquário
em meio a conchas
de mentira e peixes
coloridos

 

(Era preciso manter-lhe
a essência da fluidez)

 

Via-o pela manhã, ao
jogar o farelo com
cheiro de mar

 

(Ah, quantos artifícios
podem habitar num aquário!)

 

E juro, juro que
pensei em salvá-lo!

 

(Ainda que, para isso,
deixasse de ser um segredo)

 

Mas antes que pudesse

resgatá-lo da inércia,

tragou-o as algas de plástico

 

-- E nada mais tenho para te contar.

 



Escrito por Vássia Silveira às 10h03
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Toni Frissel

Homens do Mar

Ela sentou-se e começou a falar de um barco. Trazia agarrada às mãos o novo namorado, um pescador que tinha conhecido há cerca de um mês, quando comprava peixe na praia para um jantar que daria aos amigos. Da areia, apontava para o oceano e dizia que seu sonho era comprar o tal barco e navegar sem destino por aquelas águas...

Esta crônica continua no Mínimo Múltiplo



Escrito por Vássia Silveira às 12h35
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Depois de ferir a carne
e ver escorrer meu sangue,
descobri que a lambida
do demônio -- que me torce
o pescoço no pesadelo --
é menos nociva que a tua frase
de efeito e o teu beijo roubado.



Escrito por Vássia Silveira às 15h48
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